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Segunda-feira, 30 de novembro de 2020

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Câmera flagra motociclista batendo em caminhonete de juiz que fez manobra irregular; veículo seria utilizado pelo filho

Da Redação - Wesley Santiago

20 Out 2020 - 17:10

Foto: Reprodução

Câmera flagra motociclista batendo em caminhonete de juiz que fez manobra irregular; veículo seria utilizado pelo filho
Uma câmera de segurança flagrou o exato momento em que o motociclista R.S.S., 36 anos, fica ferido ao bater em uma caminhonete Toyota Hilux, no Trevo 8 de Abril, na tarde da última segunda-feira (19), em Cuiabá. O condutor da picape fugiu do local do acidente e ainda teria ameaçado pessoas que o perseguiram com uma arma de fogo. O veículo foi adquirido pelo juiz Paulo Martini, em fevereiro deste ano e seria constantemente utilizado por seu filho, Paulo Eduardo Martini, 28 anos. A reportagem não conseguiu contato com as partes.

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Conforme boletim de ocorrências, o motociclista seguia pela avenida José Monteiro de Figueiredo enquanto que a caminhonete vinha da Avenida Getúlio Vargas. O veículo que pertence ao juiz então fez uma manobra proibida, atravessou a pista e entrou no posto, quando o certo seria fazer a conversão obrigatória a esquerda.



Neste momento, o motociclista colidiu na caminhonete e foi arremessado ao chão, ficando ferido. Ao perceber o acidente, o condutor da Hilux então estaciona no posto, mas engata marcha ré e depois sai do local do acidente sem prestar nenhum tipo de socorro à vítima.
 
Alguns motociclistas chegaram a perseguir o condutor da caminhonete, mas eles teriam sido ameaçados pelo homem, que estaria portando uma arma de fogo.
 
Ainda conforme boletim de ocorrências, os policiais entraram em contato com um homem que seria o proprietário da caminhonete. Porém, ele informou que vendeu o veículo para o juiz da cidade de Sinop e que o veículo seria comumente utilizado pelo filho do comprador.
 
O motociclista foi socorrido consciente por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado para atendimento médico. O atual estado de saúde dele não foi informado.
 
Outra ocorrência
 
Paulo Eduardo Martini, o filho do juiz, se envolveu em uma situação parecida na cidade de Carlinda, no dia 15 de maio deste ano. Na ocasião, ele teria passado pelo bloqueio da vigilância sanitária do município de Paranaita em alta velocidade, não respeitando as barreiras e colocando em risco a vida das pessoas que ali estavam.
 
Foi iniciada então uma perseguição pela MT-238, até o Trevo Piovezan, onde os policiais conseguiram abordar a mesma Toyota Hilux envolvida no acidente de ontem, em Cuiabá. Paulo então desceu extremamente exaltado, conforme o boletim de ocorrências, e já tentando intimidar os PMs, dizendo que era filho de um juiz de Sinop.
 
Nas buscas, os policiais encontraram uma pistola 380 e várias munições. Questionado sobre o armamento, o filho do juiz disse que seria filiado a um clube de tiro no município de Sinop, mas que não estaria em posse da documentação.
 
Paulo Eduardo Martini acabou sendo conduzido, com o uso de algemas, para a delegacia, por direção perigosa. Na ocasião, a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) dele também foi recolhida.
 
Confusão na Justiça do Trabalho
 
Em janeiro de 2018, o juiz e seu filho se envolveram em uma confusão com uma advogada, na cidade de Sinop. A vítima registrou um boletim de ocorrências, onde narrou que ajuizou uma ação trabalhista em desfavor do senhor Paulo Martini, e que na primeira audiência, ele disse que iria processá-la, representar contra a mesma na OAB e que sabia onde ela morava.
 
Na data do fato, houve uma audiência, mas desta vez com o filho do juiz, sendo que ele resolveu o acompanhar até a sala da audiência. No entanto, por já ter tido problemas com Paulo Martini, a advogada pediu para que o então ex-magistrado se retirasse da sala, já que não fazia parte do processo.
 
O juiz então se recusou a sair e interferiu várias vezes, causando tumulto, dizendo que a comunicante era incompetente e iria perder novamente o processo. Após o fim da audiência, a advogada esperou que as partes fossem embora. Porém, quando saiu da sala, notou que o magistrado e o filho estavam a aguardando.
 
Paulo Martini então teria chamado a advogada de “vagabunda” dez vezes e disse que daria “um tiro em sua cara”. O filho do juiz, Paulo Eduardo Martini, também a teria empurrado algumas vezes, sendo necessária a interferência da segurança. O magistrado não foi conduzido por dizer que devido ao seu cargo, não cabia prisão naquela situação.
 
Mais um problema
 
Pai e filho também tem registro em seus nomes um boletim de ocorrências sobre o arrendamento de uma fazenda, em Apiacás. Houve uma desconfiança sobre uma questão envolvendo gados da propriedade e uma confusão com a rescisão do contrato entre as partes. Houve, inclusive, ameaças de troca de tiros na localidade.
 
Transferência de veículo
 
No Departamento Estadual de Trânsito (Detran) consta a comunicação de venda da caminhonete para o juiz Paulo Martini em 12 de fevereiro deste ano. Desde então, o veículo já tem três multas por excesso de velocidade, sendo uma em abril na BR-163, em Sinop, por transitar em velocidade superior a máxima em até 20%; outra em maio, no perímetro urbano de Sinop, por andar acima da velocidade superior a máxima entre 20% e 50% e a última do começo de outubro, na avenida Rubens de Mendonça, em Cuiabá, por transitar em velocidade superior a máxima em até 20%. Ao todo, são mais de R$ 450 em notificações.
 
Perda de cargo e volta
 
Por maioria de votos, o Pleno do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) condenou em fevereiro de 2016 o juiz pela prática de corrupção passiva. Martini foi condenado nos autos de ação penal que o acusava de ter solicitado a um advogado o valor de R$ 7 mil e um trator estimado em R$ 30 mil para a concessão de liminares favoráveis em processos sob sua jurisdição.
 
No Pleno, a ação penal teve como relatora a desembargadora Maria Aparecida Ribeiro. Também foi estabelecida pena de dois anos, sete meses e 15 dias de reclusão, em regime aberto, além do pagamento de 100 dias-multa, cada um equivalente a um salário mínimo vigente ao tempo do ato delituoso.
 
Porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a perda do cargo público decretada contra o juiz deveria ser reavaliada pelo Judiciário em Mato Grosso.
 
Conforme informações confirmadas ao Olhar Jurídico pelo próprio Paulo Martini, o STJ considerou que havia fortes evidências de que ele tinha sido alvo de um conluio de advogados para afastá-lo. Diversas questões fáticas extremamente relevantes não foram apreciadas durante julgamento.
 
O caso já estava prescrito e por isso a reavaliação não foi possível. Sendo assim, ele acabou reconduzido ao cargo.

Outro lado

A reportagem tentou diversas vezes entrar em contato com o juiz, através do celular (66) 9 xxxx-xx00. Na primeira tentativa, uma mulher atendeu, mas assim que questionada sobre se o Paulo Martini poderia atender desligou.

Nas outras tentativas, as ligações não foram atendidas e foram parar na caixa postal. A reportagem também encaminhou mensagens no WhatsApp do magistrado (em que consta inclusive sua foto), mas ele apenas visualizou e não respondeu.

O espaço continua aberto caso ele e o filho queiram se posicionar.

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