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Domingo, 09 de maio de 2021

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Preso pela DHPP

Ex-pistoleiro de Arcanjo teria participado de outra tentativa de chacina e ignorou clemência de pescadores

Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

Ex-pistoleiro de Arcanjo teria participado de outra tentativa de chacina e ignorou clemência de pescadores
Édio Gomes Júnior, o “Edinho”, que seria um dos ex-pistoleiros de João Arcanjo Ribeiro e que ficou conhecido como um dos autores da 'Chacina da Fazenda São João', teria participado de outra tentativa de assassinato em massa um mês antes deste ocorrido, que culminou na morte de quatro pescadores. O grupo, formado por seguranças e outros funcionários da propriedade, se vestia com camisas da Polícia Federal e ficava de tocaia na espera de invasores.

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Edinho foi preso na última quinta-feira (15), pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no Estado de Sergipe, onde constituiu uma família e vivia vendendo açaí.
7O ex-pistoleiro tinha uma identidade falsa. Ao todo, foram 17 anos até ele ser pego em investigações dos delegados Fausto Freitas e Marcel Oliveira, da unidade especializada de Cuiabá.
 
Contra Edinho, além do mandado por conta da chacina, também havia outro pela tentativa de mais um assassinato em massa. Ele, junto a outros funcionários da então fazenda de João Arcanjo Ribeiro, teriam armado uma emboscada, em 27 de fevereiro de 2004, contra um grupo de pescadores que estava na propriedade rural.
 
Naquela data, um grupo de seis pescadores teria invadido a Fazenda São João com objetivo de pescar nas represas. Porém, após um tempo, foram surpreendidos por um grupo, que seria formado por Edinho e outros comparsas. Rapidamente eles mandaram que todos parassem e, logo em seguida, começaram a disparar.
 
As vítimas então correram para o meio do mato, sendo que um deles, Vidal Sérgio Rondon, acabou sendo encontrado e atingido por um disparo na lombar. Mesmo assim, o homem conseguiu fugir novamente e se esconder em uma região de mata fora da fazenda, junto com outro dos pescadores.
 
Vidal teria inclusive ouvido um dos pistoleiros dizer que este não seria o primeiro crime: “já matamos dois e não param de vir”. Os homens estavam todos de touca e com roupas pretas, com inscrições que pareciam da Polícia Federal. A vítima só conseguiu pedir socorro no outro dia, já pela manhã.
 
O disparo que atingiu Vidal perfurou o rim, pulmão e baço. À época do depoimento, ele ainda tinha restrições por conta dos ferimentos.
 
20 minutos para morrer
 
Na reprodução da chacina da Fazenda São João, realizada pela Polícia Civil em maio de 2004 por solicitação do Ministério Público, da qual participaram dois dos investigados, foi confirmado por eles que os três pescadores sobreviventes da emboscada (um morreu por disparo de arma de fogo) foram amarrados, jogados em uma das represas e que demoraram 20 minutos para morrer.
 
Quando um deles tentava sair da represa, no intuito de salvar sua vida, os pistoleiros os retornavam novamente para o meio do lago.
 
A chacina
 
Os pescadores Pedro Franscico da Silva (25), José Francisco de Almeida (27), Arelir Manoel de Oliveira (32) foram torturados e afogados, após seguranças que seriam pistoleiros do ex-comendador João Arcanjo Ribeiro, terem matado o seu colega, Itamar Barcelos (32). O crime aconteceu em março de 2004, quando todas as vítimas estavam pescando em uma das propriedades do ex-bicheiro sem autorização.
 
O crime bárbaro foi relatado no processo judicial que culminou nas condenações de vários seguranças da fazenda de Arcanjo. Foram denunciados como executores dos pescadores o gerente do setor de pescas da fazenda, Joilson James Queiroz, e os seguranças Noreci Ferreira Gomes, Valdinei, Evandro Negrão, Édio Gomes Júnior, o “Edinho”, Alderi Souza Ferreira, o "Tocandira", Adeverval José Santos, o “Paraíba”, e Carlos César André, o “Pezão”.
 
Conforme a denúncia, os seguranças vistoriavam os arredores das represas, devidamente armados, ação que era rotineira e ocorria até às 21 horas. No dia do fato, por volta das 20 horas, o grupo teria se dividido em dois, sendo que cada um foi para um lado da represa.
 
O segundo grupo localizou as quatro vítimas pescando, surpreendendo-as com disparos de arma de fogo. Itamir foi o primeiro a morrer, já que o disparo de arma de fogo foi fatal. Outro deles acabou atingido no abdômen, mas não foi a óbito na hora.
 
Após os disparos, os seguranças teriam se reunido para verificarem o que havia ocorrido. As vítimas sobreviventes foram dominadas, tendo mãos e pés amarrados, uma às outras e sob a mira de armas de fogo, momento em que o acusado Edinho telefonou para Joílson, que era um dos administradores da fazenda e narrou o ocorrido da seguinte forma:
 
"Matamos uma capivara e tem três amarradas, se quiser, trás uma faca para tirar o couro"
 
Ao tomar conhecimento do fato, Joílson foi até o local com Noreci, e ordenou que os pistoleiros afogassem as vítimas que haviam sobrevivido aos tiros, afirmando que  fariam isso para que não deixassem pistas do homicídio que vitimou Itamar.
 
As vítimas foram amarradas juntas e jogadas na represa, sem darem ouvido aos gritos de clemência dos pescadores. Acrescenta ainda que, no momento em que as vítimas submergiram, buscando meios de saírem da água, eram impedidas pelos acusados Alderi e Evandro.
 
Após a morte de todos serem constatadas, os seguranças colocaram seus cadáveres no veículo Saveiro e fizeram a desova dos corpos, um a um, na margem da estrada.
 
Confira abaixo o que dizem os laudos da morte das quatro vítimas da chacina:
 
Vítima: Areli Manoel de Oliveira
 
Ao exame externo, os peritos constataram:
 
- Processo de rigidez cadavérica instalado;
 
- Mãos de lavadeira;
 
- Sinais de luta pelo corpo;
 
- Ferimentos provocados por instrumento contuso nas regiões orbitais, nasal, malar, masseterina, bucinadora, labial e geniana;
 
- Presença de apergaminhamento no terço inferior das pernas e punhos;

 
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Vítima: José Ferreira de Almeida
 
Vítima com lesões no pescoço, na cabeça e equimose no corpo, porém a causa da morte foi afogamento.

 
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Vítima: Pedro Francisco da Silva
 
A vítima apresentou trauma craniano, porém a causa da morte foi asfixia mecânica por afogamento.

 
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Vítima: Itamar Batista Barcelos
 
A vítima foi atingida por 02 disparos de projétil de arma de fogo, à distância, de direita para a esquerda, ligeiramente de baixo para cima o disparo 1 e o segundo da esquerda para a direita.
 
As lesões 1 de descrição são orifícios de entrada de PAF e as do item 2, orifício de saída.

 
Conclusão:
 
Diante dos dados colhidos durante a necropsia e dos resultados, concluímos que a causa da morte de: Itamar Batista Barcelos, deu-se por choque hipovolêmico, produzido por projétil de arma de fogo.

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