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Domingo, 13 de junho de 2021

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Abaixo-assinado por implantação de Ambulatório Trans em Cuiabá tem 16 mil apoiadores; Prefeitura aguarda fim da pandemia

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Abaixo-assinado por implantação de Ambulatório Trans em Cuiabá tem 16 mil apoiadores; Prefeitura aguarda fim da pandemia
Criado em março deste ano, o abaixo-assinado do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades - Mato Grosso (Ibrat - MT) que reivindica do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e da Prefeitura de Cuiabá a retomada da criação de um Ambulatório Trans em Cuiabá, que seria o primeiro do estado, já conta com mais de 16 mil assinaturas. O projeto da unidade hospitalar estava previsto para ser implementado no Hospital Universitário Júlio Muller em 2020, mas até hoje não saiu do papel. O MPMT diz que apura através de inquérito a inexistência do ambulatório. A Prefeitura de Cuiabá, por sua vez, afirma que projeto deve ser retomado assim que for normalizado o sistema de saúde da cidade.

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No texto do documento, homem trans e coordenador municipal de Cuiabá do Ibrat-MT, Ian compartilha a própria história para exemplificar as dificuldades que enfrentou em decorrência da ausência de apoio médico e hospitalar específico para possibilitar o seu processo de transição na capital. Ele fala ainda sobre os riscos que essa realidade implica na vida de pessoas trans que, frente a essa ausência, terminam recorrendo a tratamentos clandestinos. 

“Quando iniciei a minha transição, não tive a ajuda de ninguém. Nem sabia que a palavra trans existia. Fui pesquisando aos poucos, com a ajuda da minha mãe e com a orientação de profissionais de psicologia. Há pessoas com problemas seríssimos de saúde na minha cidade, por causa da dosagem errada de hormônios. Pela falta de um ambulatório, pessoas estão se mutilam e algumas já têm órgãos comprometidos por terem tomado dosagens altas de hormônio”, diz. 

De acordo com o Ibrat-MT, o projeto do ambulatório trans estava previsto para ser implementado em março de 2020 no Hospital Universitário Júlio Muller, porém, com a pandemia, a unidade médica tornou-se referência para o tratamento da Covid-19. Apesar disso, Ian enfatiza que o projeto segue aguardando a disponibilização de um espaço no hospital ou um novo local para a sua execução. 

“As necessidades das pessoas trans vão além de mudanças estéticas. É necessário o suporte psicológico e social para que tenham qualidade de vida dentro de um contexto social que as invisibiliza. É necessário um atendimento de diversas áreas da saúde, entre elas psicologia, psiquiatria, endocrinologia e clínica geral. O processo inclui também as cirurgias de redesignação sexual”, explica. 

No Brasil, a média de expectativa de vida de travestis, transexuais e transgêneros não chega aos 36 anos. Além disso, é o país que mais mata pessoas trans no mundo, tendo tido 175 assassinatos em 2020, o equivalente a uma morte a cada 2 dias, segundo o relatório anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Entre as causas das mortes também estão ocorrências causadas pelo uso de silicone industrial, tratamentos clandestinos e um grande número de suicídios, segundo a organização. 

“Se a viabilidade do Ambulatório por hora não for possível no Hospital HUJM, que seja redirecionado para outro local, como as Unidades Básicas de Saúde de Cuiabá. A população transgênero necessita que seus direitos e o acesso à saúde sejam cumpridos e respeitados”, finaliza Ian no abaixo-assinado. 

Ministério Público apura caso

Por se tratar de tema relacionado à saúde, foi instaurado no Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) um inquérito civil para investigar a não implantação do ambulatório. O processo está em andamento na 7ª Promotoria de Justiça Cível, sob responsabilidade do promotor de Justiça Alexandre Guedes.  

"O IC [Inquérito Civil] foi instaurado para apurar as razões da inexistência de ambulatório de assistência especializada à população transexual em Mato Grosso, para oferta de serviços de diagnóstico, acompanhamento clínico, pré e pós-operatório e hormonioterapia, destinadas a promover atenção especializada no Processo Transexualizador, adotando as medidas necessárias para sua implantação pela rede pública de saúde", diz em nota enviada a reportagem. 

Prefeitura aguarda normalização do sistema de saúde

Procurada pela reportagem, a prefeitura de Cuiabá confirmou que no ano passado houve uma articulação da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) com o Serviço de Atendimento Especializado (SAE) e o Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM) para a instalação de um Ambulatório Transexualizador na unidade hospitalar. Entretanto, com o surgimento da pandemia e a suspensão dos procedimentos eletivos, o projeto foi suspenso. 

Em nota, o executivo municipal diz que a cooperação previa a instalação de um ambulatório transexualizador que iria oferecer, inicialmente, terapia hormonal, atendimento multidisciplinar e, posteriormente, cirurgia de redesignação sexual. No ano passado, equipes multidisciplinares da SAE e do HUJM chegaram, inclusive, a serem treinadas em oficina do Ministério da Saúde, ofertada em parceria com o Hospital Albert Einstein.

Leia a nota na íntegra:

Em relação ao ambulatório transexualizador, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informa que houve uma articulação entre o Serviço de Atendimento Especializado (SAE) e o Hospital Universitário Júlio Muller até o ano de 2020, pouco antes da pandemia de covid-19. A cooperação previa a instalação de um ambulatório transexualizador no HUJM, que iria oferecer, inicialmente, terapia hormonal e atendimento multidisciplinar e, posteriormente, cirurgia de redesignação sexual.

A SMS, através do SAE, participaria com a disponibilização de profissionais. Houve a capacitação da equipe multidisciplinar, tanto do SAE quanto do Hospital Júlio Muller, através de oficina ministrada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Albert Einstein.

No entanto, com a pandemia e consequente suspensão dos serviços eletivos de saúde, o projeto foi suspenso. Existe um grupo de pessoas com interesse no ambulatório (tanto profissionais quanto pacientes) e essa discussão que deve ser retomada tão logo as condições do sistema de saúde permitam.

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