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Quinta-feira, 29 de julho de 2021

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BAIXA NO FATURAMENTO

Com alta no combustível e sem reajuste na corrida, motoristas de Uber optam por horário com tarifa dinâmica ou abandonam app em Cuiabá

Foto: Marcos Salesse / Olhar Direto

Com alta no combustível e sem reajuste na corrida, motoristas de Uber optam por horário com tarifa dinâmica ou abandonam app em Cuiabá
No fluxo contínuo do trânsito cuiabano, atravessam ruas e avenidas motoristas que estão cada vez mais repensando a viabilidade de continuar atuando pelos aplicativos. O reflexo desse questionamento pode ser visto nos passageiros que vêm utilizando a frase “está difícil conseguir um motorista” com maior frequência. Para alguns destes profissionais, o principal ponto de desgaste está na alta do preço dos combustíveis combinado com um valor baixo cobrado pelas corridas realizadas.  

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Se antes para conseguir fazer uma média bruta de R$ 300 em um dia de trabalho, rodando aproximadamente 6h a 8h, Luiz Felipe, de 31 anos, agora precisa trabalhar entre 10h a 12h. “Antes eu fazia 15 corridas, agora preciso fazer 25, e isso gera um desgaste maior do carro, mais gastos e lugares onde a gente vai sem o mínimo de segurança, só pensando ‘eu preciso dessa corrida então eu tenho que aceitar’”, conta o motorista. 

Luiz iniciou no aplicativo em fevereiro de 2019 e desde então segue atuando. - Foto: Arquivo PessoalAtuando no aplicativo Uber desde fevereiro de 2019, o Uber do Cerrado, como também é conhecido por clientes e amigos, ressalta que o preço cobrado pelas corridas permanece sem alteração há anos. “A plataforma não repassa a alta do combustível para os passageiros, e consequentemente quem acaba pagando por isso somos nós”, afirma. 

Assim como Luiz, outros profissionais também reclamam da baixa remuneração frente ao aumento dos preços cobrados para a manutenção dos veículos utilizados. “Desde quando entrei ainda não teve nenhum reajuste de tarifa, e quando comecei o pessoal mais antigo já reclamava disso. Aumenta nossas despesas, mas o valor que recebemos do aplicativo continua o mesmo de anos atrás”, disse Arenor de Figueiredo Júnior, de 25 anos, motorista de aplicativo há aproximadamente dois anos. 

Segundo Arenor, o desequilíbrio entre os preços cobrados e os gatos fazem com que muitos motoristas não consigam fechar a conta no final do mês, tornando inviável o trabalho pelo aplicativo. O jovem comenta ainda que viu seu faturamento cair desde o início do ano passado, quando a alta no preço do combustível passou a afetar ainda mais o valor que conseguia juntar no final do mês. 

“Quando eu comecei, as despesas com o combustível representavam em torno de 30% do meu faturamento. Conforme os aumentos foram acontecendo, desde o ano passado, percebi uma baixa no meu faturamento. Só nesse último mês de junho, 50% do meu faturamento foi gasto com combustível”, revela. 

A consequência dessa inconformidade está na maior dificuldade dos passageiros em encontrar corridas, principalmente em horários de menor fluxo. Para Arenor e Luiz, o impasse frente aos gastos fizeram com que muitos motoristas desistissem de atuar na plataforma ou passassem a selecionar quais corridas “valeriam mais a pena”. 

“O meu irmão fazia Uber e tenho outro amigo que também fazia, ambos desistiram. Ficou muito inviável, como o ganho diminuiu muito, muitos não possuem tempo disponível para aumentar a jornada de trabalho e acaba ficando inviável”, comenta Luiz. 

“A gente acaba pagando para trabalhar”

Diante desta realidade, ex-motoristas como Daniel Silva Melo, de 28 anos, contam que abandonar os aplicativos tem sido a única saída encontrada por alguns profissionais. Após rodar pela Uber por aproximadamente quatro anos, Daniel comenta que desistiu por não conseguir arcar com as despesas frente ao que faturava. “Parei de trabalhar como Uber por conta da alta dos combustíveis, os aplicativos não tinham uma previsão para um reajuste ou linha de adequação dos valores e eu optei por não atuar nesse segmento”, aponta. 

O desgaste de trabalhar como motorista também foi um ponto decisivo para que Daniel encerrasse sua atuação na área. “A rotina de um motorista de aplicativo é muito desgastante ,você acaba dependendo muito de trabalhar em horários de finais de semanas, o seu lado pessoal é deixado muito de lado quando você atua como motorista”, desabafa. 

Além dos gastos do combustível, o ex-motorista indica que até mesmo o fechamento da fábrica da Ford no Brasil, anunciada em fevereiro deste ano, afetou o valor final que conseguia lucrar no final do mês. “O cenário atual é muito complicado. Eu por exemplo tenho um carro da Ford, e com o fechamento da fábrica, o preço das peças para o meu carro subiram muito, isso quando encontro as peças”, analisa. 

Para Daniel, as consequências da alta dos preços e a saída de muitos motoristas da plataforma reforçam que no fim das contas ninguém sai ganhando. “Existe muita demanda para pouco motorista atuando, então no final ninguém ganha”, finaliza. 

Uber anuncia faturamento recorde

A reportagem entrou em contato com a Uber para falar sobre a falta de reajuste nos preços das corridas. A empresa informou que na última semana foi registrado o maior faturamente dos motoristas desde o início do ano. Por meio de nota, a plataforma afirmou ainda que os motoristas cuiabanos que dirigiram por volta de 40 horas ganharam, em média, de R$ 1.460 a R$ 1.480 por semana.

Leia a íntegra da nota: 

"Na última semana, os ganhos de quem dirige com o app da Uber foram os maiores desde o início do ano. Em Cuiabá, por exemplo, os parceiros que dirigiram por volta de 40 horas ganharam, em média, de R$ 1.460 a R$ 1.480 por semana. Em um mês, significa que os motoristas estão com média de ganhos superior aos rendimentos mensais de várias atividades no país, como fisioterapeutas, intérpretes, marceneiros ou corretores de seguros, por exemplo, de acordo com dados do site Trabalha Brasil, que compila essas informações.

É importante lembrar que os ganhos dos parceiros da Uber são bem particulares, porque são muitas as variáveis em jogo, já que cada um escolhe como quer usar a plataforma. Por exemplo, como os parceiros da Uber são livres para decidir em quais dias e horários dirigir, quem dirige em dias e horários de maior movimento tem uma maior chance de ganhos por causa do preço dinâmico."

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