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Quinta-feira, 16 de setembro de 2021

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mesmo na seca

“O maior predador dos saguis é o ser humano”: entenda o risco de dar água e comida a animais no Mãe Bonifácia

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

“O maior predador dos saguis é o ser humano”: entenda o risco de dar água e comida a animais no Mãe Bonifácia
Para garantir a biossegurança, a multa para quem alimenta animais silvestres em Parques Estaduais do estado de Mato Grosso pode chegar a até R$ 10 mil conforme decreto federal. No Parque Mãe Bonifácia, localizado em Cuiabá, porém, não é incomum escutar relatos da gerência da Unidade de Conservação de frequentadores que dão água e alimentos para os saguis que lá vivem.

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“Desde a criação da unidade a aproximação do ser humano com os animais silvestres é proibida, mas com a aproximação dos saguis, [a população] passou a alimentar esses animais”, conta ao Olhar Direto o coronel da Polícia Militar Celso Benedito Pinheiro, gerente da Unidade de Conservação Parque Mãe Bonifácia. 

O militar que trabalha há mais de 10 anos na unidade de conservação destaca que esse comportamento representa um risco enorme para a sobrevivência dos animais. Um ano após o surto, causado a partir do contato com humanos, que matou mais de uma dezena dos saguis que viviam no parque, Celso ainda se lembra do episódio que ele caracteriza como uma catástrofe. 

“Morreram 16 [saguis], que foram pegos e levados para fazer a autópsia e foi detectado que foi através da Herpes [Simplex]. Para o animal, principalmente para o macaco, ela é extremamente transmissível e quase que dizimou os animaizinhos aqui”. Nos macacos, o Herpes Simplex evolui para inflamação que pode afetar diversos órgãos, podendo causar lesão de pele, mucosas, pulmão, coração, fígado e no sistema nervoso central. 

Animais não passam sede nem fome



Apesar de partir de uma boa intenção, Celso enfatiza que a população que frequenta o parque e, indevidamente, da água e alimento para os animais silvestres, sobretudo os saguis, está ignorando todo o aparato existente no parque, necessário para o bem viver dos animais. 

“Alguns tanquezinhos, alguns bebedouros pequenos, para os saguis e os pássaros beberem água. Morrer de sede jamais, e de fome também”, esclarece o gerente ao informar sobre os 12 tanques com água que estão distribuídos nas instalações da unidade. 

Entre esse número está, por exemplo, inclusive um  poço artificial alimentado pela água da chuva. O reservatório, segundo Celso, permanece perene e cheio, durante todo o ano. “Se fosse assim eles não reproduziriam nessa época”, destaca o militar ao rebater comentários de que os animais passam fome e sede. 

Poço artificial é uma das fontes onde os saguis e passaros tomam água no parque. (Foto: Rogério Florentino)

“Tem que deixar o animal viver como ele sempre viveu aqui antes da criação do parque. A partir do momento que você o cativou, você vai torná-los refém de você. Todo ano tem esse período de seis meses de estiagem, e nunca foi visto aqui morrer de fome um sagui”. 

Aos frequentadores do parque que insistem em descumprir a orientação federal, assim como a da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), para não alimentarem os animais do parque, Celso é taxativo.

“O maior predador para os saguis ou qualquer outro animal aqui dentro da unidade de conservação é o ser humano, são aqueles que na boa intenção estão trazendo alimentos e dando água a esses animais. Ele é o maior predador aqui da Mãe Bonifácia”, completa.
Risco do contato torna humanos o principal predador dos saguis no parque diz gerente da unidade de conservação. (Foto: Rogério Florentino)

Interferência humana gera doenças, dependência do animal e desequilíbrio nutricional 

De acordo com a médica veterinária e doutora em cirurgia veterinária, Elaine Dione Venega da Conceição, que é responsável pelo setor de atendimento do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), os riscos para os saguis, assim como para os animais silvestres em geral, podem ser situados em três principais eixos.

O primeiro deles, é o condicionamento e a criação de uma dependência dos animais ao alimento fácil. Isto, segundo ela, pode desencadear um comportamento agressivo quando este objetivo não é alcançado, principalmente pelos primatas como é o caso dos saguis. 

“Na condição de alimentação dos animais pela população em geral começa [a se] a desenvolver um comportamento mais agressivo e de ataques. [As vítimas podem ser] as pessoas, principalmente crianças, que não vão ter bem elaborada essa percepção de comportamento ou de ameaça dos animais”, explicou.
Riscos do contato são múltiplos para o humano e o animal. (Foto: Rogério Florentino)

Outro fator de risco é o desequilíbrio nutricional, facilitado, sobretudo, com a alimentação indevida e não apropriada para determinada espécie, que é feita pelos seres humanos aos animais. “O risco de intoxicações, de desequilíbrios do trato gastrointestinal e o desenvolvimento de outras doenças em consequência dessas afecções gastrointestinais iniciais é muito grande”. 

A pesquisadora também destaca o risco à biossegurança com a proliferação de doenças que podem ser transmitidas tanto dos animais para os humanos, quanto dos humanos para os animais. Fator que desencadeou a epidemia do ano passado citada por Celso.   

“Essa aproximação com os humanos e até mesmo um possível comportamento agressivo expõe muito, tanto a população humana quanto a população dos animais silvestres à riscos biológicos”, completou. 

Multa para quem alimenta animais silvestres pode chegar a R$ 10 mil. (Foto: Rogério Florentino)

Multas para quem alimentar animais silvestres

Conforme o decreto federal Nº 6.514, de 22 de julho de 2008, a multa vai de R$ 500 a R$ 10 mil para atividades ou condutas em desacordo com os objetivos da unidade de conservação, o seu plano de manejo e regulamentos específicos. 

O Parque Mãe Bonifácia é uma das três unidades de conservação urbanas sob responsabilidade da Sema-MT, localizadas em Cuiabá. A unidade atende à população para a realização de trilhas e academia ao ar livre, com restrições por conta das medidas de prevenção à Covid-19, como o uso obrigatório de máscaras, distanciamento, e a proibição de entrada de alimentos.
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