Olhar Direto

Quinta-feira, 25 de maio de 2017

Opinião

Teresa de Benguela, a rainha negra de um quilombo do sertão de Mato Grosso

Autor: *Vera Moraes de Oliveira

07 Mar 2017 - 07:24

Divulgação


O que tem Teresa de Benguela em comum com o Dia Internacional da Mulher?

Em tempos difíceis é importante lembrarmo-nos daqueles, os quais sua história de vida nos traga reflexão, exemplos e motivação e, é desta forma que quero trazer a luz um pouquinho da história de vida de uma grande mulher, cuja trajetória ainda não é muito divulgada. 

Não adianta negar o mundo é cheio de mulheres maravilhosas que lutam contra as imposições sociais, que lutam em defesa da liberdade, da igualdade de gênero e por reconhecimento de direitos e, de quebra ajudam a transformar o planeta em um lugar melhor para todos.

Teresade Benguela, ou simplesmente rainha Teresa, mulher, negra, escrava que se tornou a líder de uma comunidade quilombola chamada “Piolho”, localizada aos arredores do rio Guaporé, onde viveu por quase vinte anos durante o século VXIII quandoVila Bela da Santíssima Trindade ainda era a capital do atual Estado de Mato Grosso.  Durante o período colonial os negros eram trazidos da África para se tornarem escravos no Brasil.

Homens a serviço da Coroa portuguesa rasgavam o chão dos sertões, dos campos e florestas, se embrenhavam pelos rios em busca de oportunidades de exploração que lhes garantisse lucro e riquezas, cuja missão era garantir a sustentação da Corte de Portugal.  E os negros, trazidos da África se tornaram meio desse ganho, pois eram obrigados a levar uma vida de servidão e suas mulheres eram tratadas como objetos de manuseio, oraservindo-se de escravas para as patroas,ora servindo a cama dospatrões. 

Não suportando essa vida de escravidão os negros começaram a se organizar nas senzalas travando grandes batalhas na luta por liberdade. Muitos morreram pelas mãos dos capitães do mato, uma espécie de capataz das fazendas, mas que na verdade era outro escravo dos senhores de engenhos, outros fugiram para as matas, alguns foram capturados, contudo os negros jamais aceitaram tal condição e sempre se rebelavam e fugiam.

Os que fugiam se organizavam nas matas e construíram suas moradas os chamados “mucambos” no dialeto banto falado pelos negros, esconderijos e assim foram formandos os “kilombos”, em banto, “sociedade guerreira” com rigorosas disciplinas militares segundo o historiador Dagoberto José Fonseca da UNESP. 
Teresa, uma aguerrida guerreira negra, esposa do então chefe do quilombo José Piolho, com sua morte ela assumiu o comando da aldeia e se tornou uma grande líder chamada por todos de rainhaTeresa. Destemida, estrategista e valente,

Teresa travou batalhas incríveis em defesa de seu povo. Pela segurança e sobrevivência dos quilombolas, lutou bravamente e por diversas vezes saíram vitoriosos, conquistando assim o respeito e a confiança da comunidade, é por isso que Teresa de Benguela, a rainha negra de um quilombo do sertão de Mato Grosso representa um símbolo de luta e resistência não apenas para o povo negro, mas também para todas as mulheres, pois sua luta teve reflexos importantes nas conquistas alcançadas pela classe feminina.  

Num tempo muito difícil, ela se destacou , comandou a estrutura politica, econômica e administrativa da comunidade, enfrentou grandes batalhas, resistiu à escravidão e sobreviveu.  Embora seja ainda uma desconhecida sua trajetória de vida de lutas e resistências muito contribuiu para as nossas conquistas.

O fato de a história de vida de Teresa de Benguela não ser muito divulgada se assemelha a história do povo negro que muito contribuiu com a construção do nosso país, da nossa história de modo geral,mas que permanece no anonimato. Isso nos faz perceber que o Brasil ainda não superou seu período colonial e os negros e as mulheres continuam invisíveis. 


Mas, o grito de Teresa,líder negra de um quilombo em Mato Grosso jamais se conseguiu abafar, mesmo depois de sua morte, outras Teresas surgiram, como aconteceu em oito de março de 1857 na cidade de Nova Iorque, mulheres trabalhadoras de uma Indústriatêxtil realizaram uma grande paralização como forma de protesto por melhores condições de trabalho, igualdade de direitos,pelo fim do trabalho infantil e,em fim, pelo fim da opressão- sonho de Teresa. A resposta das autoridades veiocom a repreensão policial.

Entretanto, Teresa existe e resiste, no Brasil em 1810, Nísia Floresta, professora, poetisa e escritora rompe com os padrões da época e começa a publicar textosem defesa das mulheres, índios e escravos. Nísia Florestal é considerada a pioneira do movimento feminista do Brasil, Bertha Lutz em 1920 luta para que as mulheres possam ter direito a votos, Maria Quitéria o soldado “Medeiros”, que no século XIX, lutou pela Independência do Brasil ao lado dos oficiais vestida de homem e, com esses mesmos ideais, em diversas partes do mundo os movimentos feministas tomam formas e alcançam as ruas dos grandes centros urbanos, os canaviais, os porões das grandes fábricas e indústrias, as trabalhadoras de todos os setores a simplicidade das donas de casa. 


Teresa,a rainha do quilombo do Piolho, só queria viver, viver livre, livre para plantar, livre para caçar, livre para cantar, dançar e amar. Teresa de Benguela, a rainha, queria viver em paz com seu povo em seu pequeno território entre as belezas das matas e do rio Guaporé, sem as correntes, sem os açoites, sem os abusos e sem os senhores.  Ela assim como os negros escravos e as mulheres queriam estar livre da opressão, das imposições sociais, queriam liberdade, algo bastante em comum com os objetivos que norteiam as lutas da população feminina.

Sem jamais aceitar a opressão e sua condição de escravidão, Teresa de Benguela morreu na década de 1770, quando homens da Coroa portuguesa, sob o comando do então governador da Capitania Luís Pinto de Souza Coutinho invadiram o quilombo e brutalmente o destruíram.  

Mas o grito de Teresa continuou a ecoar pelos guetos e porões da vida. Em 1904, na cidade de Poços de Caldas do Estado de Minas Gerais, Laudelina de Campos Melo,negra, outra mulher guerreira, cuja trajetória embora desconhecida trouxesse importantíssimas contribuições para o nosso mundo atual.

Defensora das causas sociais lutou por igualdade de gênero e direitos trabalhistas, fundadora do primeiro Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Brasil, sua luta foi fundamental para a categoria conquistar a Carteira de Trabalho e a Previdência Social. O oito de março é o resultado de uma série de fatos e acontecimentos ocorridos em diversas partes do mundo, dos quais as mulheres foram protagonistas.

E, para encerrar, concluo dizendo que Teresa de Benguelaa rainha negra do quilombo do Piolho, vive porque seus sonhos estão presentes na luta cotidiana de cada mulher que anonimamente busca por liberdade e reconhecimento de direitos. 

*Vera Moraes de Oliveira é Graduada em Serviço Social pelo Centro Universitário de Várzea Grande (UNIVAG); Assistente Social credenciada junto ao CRESS/MT e servidora pública da Universidade de Mato Grosso- UNEMAT
Sitevip Internet