Olhar Direto

Segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Opinião

Republicanos X aristocratas

Autor: Marcelo Ferraz

14 Mar 2017 - 08:40

A história é conselheira e pode trazer o bom senso aos cidadãos, que fazem parte de um conflito social gerado pela irresponsabilidade dos representantes da aristocracia individualista, hoje entranhada nos pilares da república do Brasil. Desta forma, os pontos chaves – da chamada Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra de Secessão, ocorrida entre 1861 e 1865 nos Estados Unidos e o momento atual da política brasileira – são quase os mesmos, mas com uma nova roupagem terminológica.

O conflito, à época, veio à tona em função na confederação dos Estados do Sul recusar a abolir a escravidão, já que o os Estados do Norte, em processo de democratização e industrialização, eram a favor que os afro-americanos pudessem usufruir dos diretos civis, ou seja, fossem libertos.          

Na eleição presidencial de 1860, os republicanos, liderados por Abraham Lincoln, se opuseram à expansão da escravidão em territórios sob a jurisdição dos Estados Unidos, mas a maioria dos grandes latifundiários – que praticamente controlavam a economia do sul, bem como os ganhos dos pequenos produtores – não queria abandonar o lucrativo negócio mantido à custa do trabalho escravo da população negra do país. Mas, enfim, após quatro anos de sangrentos combates que deixaram mais de 600 mil soldados mortos e destruíram grande parte da infraestrutura do sul do país, a Confederação entrou em colapso, e a escravidão foi abolida.

Aqui no Brasil o regime escravocrata, "oficialmente" foi derrubado no ano de 1888, pois a escravidão foi abolida através da Lei Áurea. Porém, não é segredo para ninguém que até hoje inúmeras propriedades de terras ainda, ilegalmente, mantêm trabalhadores, incluindo crianças, vivendo em condições análogas às condições de escravos: vivendo em lugares inóspitos, insalubres, sem estrutura alguma de habitação, sem água potável e sem alimentação saudável. Ou seja, proprietários que utilizam de práticas desumanas para obterem lucros à custa da exploração do trabalhador.

Contudo, esta semana o governo de Michel Temer (PMDB), por meio do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, tentou barrar no Tribunal Superior do Trabalho (TST) a divulgação do cadastro de empregadores que usam mão de obra análoga à escravidão.

Segundo informações da Justiça do Trabalho, um dia após a 11ª Vara da Justiça, em Brasília, decidir que a chamada "lista suja" deveria ser divulgada ainda na última terça-feira, 07, Nogueira, por meio da Advocacia Geral da União (AGU), recorreu no período da manhã à instância máxima da Justiça Trabalhista para adiar o anúncio.                      

Tal prática corporativista, pois visava resguardar a "integridade" dos senhores feudais – proprietários de mega-latifúndios no Brasil, que ainda mantém os status quo de senhores coloniais e estão com o chicote da ilegalidade às mãos – além de ser imoral e bárbara, já que o governo atual é a face dessa aristocracia retrógada, ainda é antirrepublicana, pois o ministro usou de uma instituição da União (AGU) para obter tal benefício aos seus mandatários, ou seja, para proteger os membros dessa, digamos, "sociedade colonial".

Não obstante a isso, também nesta semana o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendeu a mudança da legislação trabalhista e, ao reclamar do excesso de regras para a relação entre patrão e empregado – de maneira irônica e até com o semblante de capataz – , sugeriu que a Justiça do Trabalho "não deveria nem existir". Um absurdo inconcebível já mais dito por um parlamentar após a Constituição de 1988. Esta que já está sendo tratada como um menu à la carte pavoroso para atender ao gosto da aristocracia brasileira.

Mas esse não foi o primeiro ato dos asseclas de Temer – que atentam flagrantemente contra os princípios da administração pública, sobretudo, da impessoalidade e moralidade – muitas outras ações "pensadas" foram orquestradas justamente para defender os privilégios e interesses, nada republicanos, desse grupo aristocrático, como mudanças de leis de forma parcial e ilegítima:

violação de diretos sociais, retirando investimentos da saúde, da assistência e da educação; tributação desproporcional e injusta; sobrecarregando o mais pobre e dando isenções para os mais ricos; legislando em causa própria para intimidar o Judiciário e tentar se defender da operação Lava Jato; alteração das leis federais para favorecer os grandes proprietários de terras, em detrimento da vulnerabilidade do meio ambiente e etc.                              

As consequências causadas por esse desgoverno quase absolutista, para não dizer maquiavélico, quem sofre é o povo, o meio ambiente, a Constituição, e a Pátria. Como dizia o emérito jurista Rui Barbosa: "Três âncoras deixou Deus ao homem: O amor à Pátria, o amor à liberdade e o amor à verdade...", pensamento digno este que, de fato, nesses últimos tempos, não se pode notar na já combalida democracia brasileira.  

Por esse motivo que a comparação entre o período conturbado da história Norte-americana e o momento atual da política brasileira pode esclarecer a opinião do cidadão-eleitor. A intenção não é gerar uma guerra civil nos moldes dos ianques, mas alertar a sociedade sobre qual rumo o nosso país está tomando: o da civilidade, da Justiça, da igualdade e da liberdade ou da ignorância política?

*Marcelo Ferraz é jornalista e escritor. Autor de obras à venda no site da Livraria Cultura e no site Amazon.com . O autor ganhou o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e o Concurso Literário Prof. Sérgio Dalate, ofertado pela Universidade Federal de Mato Grosso(UFMT). 
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