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Terça-feira, 26 de setembro de 2017

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Morte de Fidel Castro divide cubanos e gera incerteza política para o futuro de Cuba

Por G1, com agências

27 Nov 2016 - 09:00

O anúncio da morte do líder Fidel Castro gerou homenagens e lamentações e, de outro lado, comemorações e esperança.

A morte de Fidel deixa a esquerda latino-americana órfã de sua principal referência, apesar de ele ter deixado o poder em julho de 2006, depois que uma doença intestinal o obrigou a ceder o comando de Cuba a Raúl. Detalhes sobre sua saúde nunca foram revelados.

Em Cuba, o governo cubano declarou nove dias de luto e anunciou que as homenagens começarão na próxima segunda-feira com uma cerimônia em que os cubanos poderão se despedir de Fidel. As honrarias incluem um comício na Praça da Revolução e terminarão com o envio de suas cinzas para Santiago de Cuba para descanso.

Se é considerado lenda para uns, para outros ele é um ditador implacável. Em Miami, onde vivem milhares oposicionistas exilados do governo comunista da ilha, uma multidão comemorou com bandeiras cubanas, dançou, bateu em panelas e soou buzinas de carros.

Entre os líderes mundiais também houve reações de diferentes tons. O presidente americano Barack Obama disse que "a história vai registrar e julgar" o impacto de Castro, mas que eles "trabalharam duro" para deixar o passado para trás. O presidente eleito Donald Trump classificou o líder cubano como um "ditador brutal que oprimiu seu próprio povo por quase seis décadas" e que deixa um "legado de pelotões de fuzilamento, roubo, inimaginável sofrimento, pobreza e negação de direitos humanos básicos".

Ainda não está claro qual será a política do novo presidente dos EUA para Cuba, um país sobre o qual Washington mantém há mais de meio século um ferrenho embargo comercial, mas com o qual reatou os laços diplomáticos em julho de 2015, pondo fim a mais de cinco décadas de desavenças.

Trump se mostrou muito crítico ao governo dos Castro durante sua campanha eleitoral. Além disso, o levantamento do embargo econômico depende da aprovação do Congresso norte-americano, que no próximo ano continuará tendo maioria republicana, contrária ao fim do embargo.

Era do ‘pós-castrismo’

O próprio futuro político da ilha também é incerto. Com a morte de Fidel, Cuba se aproxima da era do “pós-castrismo” em um cenário no qual o mandato de seu irmão Raúl tem data de validade e onde a grande dúvida é se as novas gerações de dirigentes políticos vão garantir a continuidade do longevo regime que começou em 1959.

Durante décadas, muitos se perguntaram se a Revolução Cubana poderia sobreviver sem seu líder máximo, cuja doença e afastamento do poder, em 2006, já havia aberto uma nova etapa no país com o mandato de Raúl Castro, herdeiro e continuador do único regime comunista do Ocidente, mas com uma marca reformista.

Raúl, de 85 anos, deu alguns passos para encaminhar um substituto institucionalizado e moderado que garanta a existência do sistema socialista cubano. "Nós estamos concluindo o cumprimento de nosso dever, é preciso dar passagem a novas gerações ou continuar abrindo caminho paulatinamente", disse o general-presidente em 2006, poucos meses após assumir as rédeas do poder em Cuba após a doença de seu irmão mais velho.

Talvez por isso, cinco anos depois ele anunciou a decisão de limitar a permanência no poder a um máximo de dez anos (dois mandatos consecutivos). Deste modo, Raúl Castro deve deixar a presidência de Cuba em 2018, após ter sido reeleito para um segundo mandato de cinco anos em fevereiro de 2013.

Nesta data, ele designou como primeiro vice-presidente e número dois do governo Miguel Díaz-Canel, nascido em 1960, em um claro sinal de renovação geracional na cúpula do poder cubano. A nomeação de Díaz-Canel foi definida pelo próprio general como "um passo definitório na configuração da direção futura do país".
Jovens x históricos

O atual primeiro vice-presidente cubano é o principal rosto de um grupo de dirigentes que não pertencem à geração histórica da Revolução (nasceram após 1959) e que foram promovidos a destacados cargos políticos durante a etapa raulista.

A esse grupo também pertencem figuras como o vice-presidente Marino Murillo, coordenador da "atualização" promovida por Raúl e considerado o "czar" das reformas que nos últimos sete anos abriram controlados espaços à iniciativa privada e eliminaram proibições que durante décadas afetaram os cubanos.

O presidente também elevou a destacados postos mulheres de menos de 50 anos: é o caso de Mercedes López Acea, que entrou no birô político do Partido Comunista no Congresso de 2011 e que é a primeira secretária do partido em Havana.

No entanto, ainda estão em atividade históricas figuras da "velha guarda" revolucionária em destacados postos do regime, como é o caso de José Manuel Machado Ventura, de 86 anos e segundo secretário do PCC, e Ramiro Valdés, de 84 anos, um dos "históricos" da Revolução cubana, participante da ação militar de 26 de julho de 1953.

Com "jovens" ou com "históricos", de qualquer forma o poder em Cuba é articulado em torno de duas poderosas estruturas: o Partido Comunista, fiador da ortodoxia política da Revolução, e as Forças Armadas Revolucionárias, que controlam os setores-chave da economia cubana e suas principais empresas estatais.
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