Olhar Direto

Quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Opinião

Carta aberta para Bolsonaro

Autor: Marcelo Ferraz

02 Ago 2019 - 08:00

Pede para sair capitão! A tua renúncia é um ato de humildade ao reconhecer que Vossa Excelência não tem a capacidade, bem como a formação necessária para representar o Brasil como presidente e líder desta Nação.

Pede para sair capitão! Em nome da moral, da ética e dos bons costumes tenha a coragem de assumir que o senhor não está à altura do cargo público mais importante do país, já que a Presidência da República demanda o máximo de responsabilidade e compostura para exercê-la; ambas qualidades de Chefe de Estado que o senhor não conseguiu despertar ainda.

Pede para sair capitão! Diante da sua visão limitada da Constituição Federal de 1988, tenha o brio e a sensatez de não sofrer mais desgastes ante a sua conduta beligerante* e antirrepublicana. *(que ou o que faz guerra ou está em guerra; que ou o que está em luta.)

Pede para sair capitão! A sociedade civil organizada não deseja mais viver em um país dividido por opiniões radicais, que estimulam ao ódio e ao conflito armado entre as classes sociais. A ditadura, seja para esquerda ou para direita, seja para qualquer lado, só trouxe desunião, vidas perdidas e atrasos para democracia do país. O tempo de massacre, em decorrência de ideologias extremistas, já passou; deixando um rastro de sofrimento e perdas para ambos os lados da História.

Pede para sair capitão! Pois os congressistas, os servidores, os gestores públicos e os cidadãos dessa pátria não aguentam mais tolerar o seu preconceito enraizado, a sua intolerância cultural, a sua truculência incivilizada e o seu ódio pelos seus "semelhantes", mas que pensam diferente do senhor.

Pede para sair Capitão! Pois lhe falta o espírito republicano para administrar esta Nação, dada a sua conduta contrária à dignidade, à honra e ao decoro do cargo de presidente. O senhor, infelizmente, com suas expressões vulgares e descabidas, afronta ao bom senso, à decência da conduta ilibada, que um representante maior desta República deveria manter diante da probidade administrativa constitucional.

Pede para sair capitão! Os cidadãos brasileiros não elegeram o senhor para – por intermédia das prerrogativas de presidente - sair perseguindo inimigos e desafetos com sua metralhadora verbal, a fim de erguer uma trincheira permanente no Palácio do Alvorada. O convívio respeitoso, com toda urbanidade possível, é inerente a um verdadeiro estadista, o que está muito longe da sua visão de poder abusiva e distorcida de democracia.

Pede para sair capitão! O cargo de presidente deve ser exercido por pessoas que representam a personificação dos princípios da administração pública, pois deveria servir de exemplo para todos os agentes políticos do país.

Já pensou se todos os vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e servidores públicos deste país adotassem um estereótipo de homem público desiquilibrado e hostil como o do senhor? Misturando o público com o privado e levando para o lado pessoal todas as questões políticas, o Estado Democrático de Direito iria desabar de vez, deixando apenas desordem e retrocessos para esta Nação.

Pede para sair capitão! A militância política, a sociedade civil organizada e os cidadãos de bem deste país, que lutaram pela redemocratização e pela CF/88, seja aqueles que se identificam com os valores da esquerda ou da direita, mas que ainda são republicanos e democratas, não almejam voltar aos tempos de trevas sanguinárias da ditadura.

Pede para sair capitão! Diante da imagem negativa e poluída que o Brasil hoje, infelizmente, está sustentando lá fora – ante a falta de uma agenda ambiental positiva; diante dos cortes indiscriminados de recursos para a Educação, Ciência e Cultura; ante a imposição da censura velada aos institutos de pesquisas e ao cinema brasileiro; ante as agressões aos direitos humanos; ante o desamparo do poder público para com as comunidades mais pobres; enfim, ante a destruição dos princípios basilares da social democracia, da imposição de um estado de exceção do tipo fascista e do desmonte do próprio Estado Democrático de Direito – seria benéfico para toda sociedade brasileira se o capitão aposentado, Jair Messias Bolsonaro, tivesse a honra e a percepção humana em renunciar ao cargo de presidente da República Federativa do Brasil.


Marcelo Ferraz é jornalista e escritor.


 
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