Olhar Conceito

Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

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Depois de perder tudo e cair na depressão, cuiabana cria canal para enfrentar os desafios com humor

Da Redação - Isabela Mercuri

13 Abr 2019 - 08:11

Foto: Olhar Conceito

Cristiane em frente à casa onde morava, que hoje não tem mais telhado

Cristiane em frente à casa onde morava, que hoje não tem mais telhado

Pode ser que você já tenha visto compartilhados no Facebook alguns vídeos de uma cuiabana que fala ‘arrastado’ sobre os problemas do dia a dia, sempre com bom humor. A história por trás de ‘Cris Cuiabá’, como ficou conhecida nas redes sociais, no entanto, é muito mais bonita e dramática do que pode parecer. A pescadora que nasceu no Sucuri e hoje tem três filhos enfrentou a depressão, pensamentos suicidas e perdeu tudo antes de encontrar um propósito e ver que, por meio da internet, poderia rir de si mesma. “Eu não me acho engraçada, eu não gosto dos meus vídeos, não me considero uma humorista. Eu sou uma pessoa que procuro enfrentar com humor meus desafios do dia a dia”, é como ela própria se define.

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Cristiane Maria Soares Dávila nasceu há 39 anos em Cuiabá, pelas mãos de uma parteria. É filha de pai e mãe pescadores. Seguiu o mesmo destino. Na infância e adolescência, vivia entre o Sucuri, onde ficava o acampamento de seus pais, e algumas casas no Ribeirão do Lipa, para onde iam principalmente na época de chuvas, quando as águas cobriam a ilha.

Casou-se pela primeira vez aos 18 anos, foi morar em um grilo, e foi deixada pelo marido quando o primeiro filho tinha um ano e onze meses. Abandonada, voltou para a ilha, onde tempos depois conheceu o segundo marido, com quem vive até hoje. Sua rotina era sempre a mesma: pescar e roçar, e procurar onde ficar na época das chuvas. Quando engravidou pela segunda vez, no entanto, ficou desesperada e, religiosa como é, decidiu falar com Deus. “Eu falava: ‘Senhor, como eu vou ter um filho aqui? Quando chega a época da enchente a água passa por cima da ilha, e a minha filha vai nascer justamente nesse período...’ Na minha cabeça eu queria que Deus desse um jeito, mas não sabia qual era esse jeito”.

A resposta também foi inesperada. “Um dia eu estava carpindo e orando, e veio uma impressão muito forte na minha cabeça, dizendo assim: ‘antes da sua filha nascer eu vou te dar uma casa’. E eu comecei a gargalhar, parei com a enxada, falei: ‘agora, pronto. Fiquei louca, to escutando até vozes’”.

Com aquela certeza na cabeça, Cristiane conseguiu, de repente, conversar com quem era, na época, responsável pela secretaria de habitação do município. Ele estava em uma escola próxima à casa de sua mãe, e não hesitou em atendê-la. “Eu falei: moço, eu estou gestante, como o senhor está vendo. Eu moro numa ilha, e essa ilha fica no Sucuri. Mas acontece que agora em março e abril as águas passam por cima da minha ilha, e a minha filha vai nascer, e eu não tenho pra onde ir. Eu quero que o senhor me dê uma casa, mas essa casa tem que ser no sucuri porque eu não vou abandonar minha ilha, porque eu sou pescadora, eu dependo dela. Ele parou e falou: não tem mais casa no Sucuri... mas eu vou te dar uma”. Em menos de uma semana, ela já estava dentro da casa com sua família.

Quase tudo na vida de Cristiane aconteceu desta forma inesperada, mas com muita prece e oração. Foi assim que ela conseguiu comprar um carro, mobiliar sua casa. Foi assim que o marido conseguiu se tornar carpinteiro, e depois empreiteiro. E foi assim que ele foi convidado para trabalhar em Manaus.

Cristiane (Foto: Olhar Conceito)

Desmoronamento

Cristiane decidiu apoiar o marido e ir com ele e os três filhos para Manaus. Para isso, tiveram que vender o carro e todos os móveis, e ela cedeu o cômodo dos fundos de sua casa para que sua mãe morasse. Chegando à capital do Amazonas, as notícias ruins não demoraram a chegar.

A primeira foi a notícia da morte do avô de Cristiane, aos 94 anos. A segunda, seis dias depois, foi a morte da avó. “Eu nunca imaginei. Eu achava que eu ia morrer e ela ia estar viva... porque pensa numa mulher forte, guerreira, trabalhadeira, atravessava aquele rio no remo, roçava, carpia e tudo mais. Eu tinha uns projetos de passear com ela, ir pra Barra do Bugres, porque ela disse que nunca tinha passeado. E eu tinha uma ligação forte com a minha avó, e meu chão começou a desabar”, lembra.

Oito dias depois da avó, um tio de Cristiane foi assassinado pela esposa. “Passou oito dias, o telefone tocou. Eu juro que eu sabia que era um ‘troço’, mas não sabia o que. E a mulher do meu tio matou meu tio. Era meu tio Mário, o meu tio que tinha todo problema na vida, mas era o que eu mais amava. Quando eu ouvi isso, as coisas se transformaram dentro de mim. A minha vida já não era mais vida”.

Sem poder vir para o sepultamento dos familiares, sem amigos e parentes por perto, Cris viu a vida desabar aos poucos. Seus filhos sofriam bullying na escola por causa do sotaque, e não queriam mais ficar naquela cidade. Depois das férias de dezembro na capital de Mato Grosso, os pequenos decidiram não voltar para a casa dos pais.

“A minha família foi o único sonho que eu tive na vida. Eu nunca tive sonho de ser rica, de nada. Desde criança eu via estrela cadente e pedia: eu quero ter uma casa, um carro, um marido que me ama e três filhos. Então eu fiquei desesperada. Eu os entendia eles, mas eu tinha que pegar meus filhos de volta”. Não deu certo. Com a ajuda da irmã, Cristiane até veio para Cuiabá tentar buscá-los, mas eles não quiseram ir.

Cristiane e a filha mais nova, Michele (Foto: Olhar Conceito)

“E as coisas em Manaus começaram a desandar, as coisas desmoronaram entre nós, em relação à minha vida pessoal, meu marido andou fazendo umas coisas... enfim, ele acabou com tudo. Com tudo”, lamenta. Enquanto estavam no Amazonas, o marido ainda mandou tirar todo o telhado da casa de Cuiabá, porque queria construir uma laje – que até hoje não veio.

Como ficou a casa de Cristiane (Foto: Olhar Conceito)

“Nesse período eu tive meus primeiros sintomas de depressão. Eu não sabia que era depressão, mas eu chorava o dia todo, eu não tinha paz. Sentia uma dor muito forte nas costas, parecia que alguém tinha colocado uma espada que tinha transpassado das minhas costas para o meu peito, e tinha criado uma cratera dentro de mim. Então eu puxava o ar, e acho que por conta dessa cratera, ele não era suficiente. E aquilo doía tanto, tanto, que me desesperava. Ai eu comecei a não dormir, eu passava dias e noites em claro andando na casa, matando mosquito, chorando... e não tinha sossego. Às vezes eu saía andando e chorando por Manaus, porque parecia que em algum lugar eu ia desaparecer e ia acabar aquela situação dentro de mim. Mas pras pessoas eu tinha que estar bem pra segurar na mão do meu marido, apesar das cagadas que ele fez. Porque eu tinha duas escolhas: ou matava ele, ou ficava junto dele. E como a família foi meu único sonho, eu optei pela família”, lamenta.

De volta a Cuiabá

Cristiane acreditava que quando voltasse para Cuiabá, para perto de sua família, as coisas melhorariam. Mas não foi assim. Por aqui, tiveram que morar em uma edícula sem paredes, onde moram até hoje. Quando chove, a água chega até as canelas, e uma ‘cachoeira’ cai bem em cima da cama das crianças. Como não tinham nada, pegaram emprestados os móveis da mãe de Cris, e aos poucos conseguiram ganhar dois colchões.

Espaço onde vivem Cristiane, os filhos e o marido (Foto: Olhar Conceito)

Mesmo perto da família, a tristeza de Cristiane não passou. Os pensamentos suicidas eram frequentes, e seu maior medo, à época, era que os familiares ficassem com a dívida do sepultamento e do jazigo. Então decidiu: iria morrer longe para ser enterrada como indigente.

“A minha vida não estava valendo mais nada, porque eu me tornei uma pessoa diferente do que eu era. De uma mãe muito amorosa, muito atenciosa, de uma boa esposa, eu me tornei uma pessoa agressiva, nervosa, explosiva, e isso me incomodava muito, me entristecia muito. Como que eu, que sonhei em ter família, não tenho paciência com meus filhos? Eu não gostava de fazer mais nada, o serviço de casa me fazia me sentir uma pessoa sem valor. A minha ilha está abandonada. Tudo aquilo que me deu prazer um dia, que eu amava, deixou de existir. Não tinha mais graça”, lembra.

As pessoas em sua volta também não ajudavam. “As pessoas pioram a gente. Elas falam assim: ‘nossa, mas você é tão nova, tão bonita, não cheia de vida... tem gente que passa pior, que não tem nem o que comer e você tem! Tem gente que não tem família, tem gente que está no hospital morrendo...’ e eu me sentia pior. Parecia que eu estava cavando um buraco e precisando só que me empurrassem pra dentro dele, e o povo vinha e me empurrava. Eu pensava: eu sou tão inútil que não consigo sair dessa. Porque as pessoas também falavam que eu não melhorava porque não queria”.
Nesse desespero, ela decidiu tentar uma última chance. Iria para Sorriso encontrar o pastor Johnny Ojeda. Se ele não pudesse ajudá-la, pegaria um ônibus para mais longe e colocaria em prática seu plano de morrer como indigente. Ela foi, mas não deu certo. Pelo Facebook, sua irmã conseguiu ver sua conversa com o pastor, pediu ajuda para uma psicóloga para quem ela fazia faxina, e, assim, Cris ouviu pela primeira vez que estava em depressão.

“Minha irmã falou pra mim: Cristiane, não faz nada. Você está em depressão. Eu conversei com a doutora, ela já conversou com uma psiquiatra. Vem embora para casa, que ela já marcou a consulta pra você na segunda-feira. Isso é um problema sério, não faça nada com sua vida, porque você está doente”.

Com ajuda da irmã e do pastor, ela começou o tratamento. A psicóloga e a psiquiatra aceitaram atendê-la gratuitamente, e a melhora veio aos poucos. Até que a família começou a se incomodar. “As pessoas ficavam assim: você tem que parar com isso, vai ficar dependente de remédio... e aquilo confundia minha cabeça. Meu marido mesmo era um deles. E aí eu decidi parar”.

Quando parou com os remédios por conta própria, os pensamentos voltaram para sua cabeça. Inclusive os pensamentos suicidas. Num destes dias, Cristiane saiu de casa decidida em se matar, mas quis se despedir do marido, que agora já estava com uma lojinha onde arrumava celulares e tablets.

“Na hora que eu cheguei meu marido falou: querida, ainda bem que você chegou aqui. Vieram umas peças erradas e a cliente vai chegar daqui a pouco pra pegar o celular, fica aqui pra mim que eu já volto”. Como tinha que esperar, Cristiane pegou um santinho de um político que passou e, de brincadeira, começou a lê-lo em um vídeo. E publicou.

“Eu publiquei, e um minuto depois já veio gente elogiar. E aquilo foi me entretendo. Meu marido chegou, e eu perdi o foco do que eu ia fazer. Decidi esperar para ver o que ia dar a eleição do candidato, e comecei a fazer vídeos. Fiz vários vídeos pra ele. E eu continuei... eu descobri que é algo que é muito natural pra mim. E desde então eu tenho me sentido melhor, tem me acalmado”.

‘Cris Cuiabá’, hoje, tem canal no Facebook, no Youtube e no Instagram, e já faz algumas parcerias. Ela ainda mora na edícula sem paredes com seus filhos e seu marido, e enfrenta os sintomas da depressão no dia a dia, mas tem melhorado. A casa que ganhou continua sem o teto, mas ela ainda tem esperanças: “Por muito tempo eu olhei pra isso aqui e via, ao vivo, como eu estava por dentro. Destruída, destroçada. Agora eu olho e penso: vai melhorar. Como? Só Deus que sabe”, profetiza.



Serviço

Conheça o canal de Cris no INSTAGRAM, FACEBOOK e YOUTUBE.

18 comentários

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  • Vanelza de Jesus Almeida
    20 Ago 2019 às 15:22

    Adoro ela, que a alegria que ela passa volte sempre para ela em dobro enchendo de amor seu coração pq fé ela já tem ????

  • Tânia Rangel
    19 Jul 2019 às 16:40

    Gostei muito da sua história e do seu relato. Sofro tb de depressão e sei bem o que é isso. Saúde, paz e muitas felicidades para vc. Tânia

  • Paulo
    17 Abr 2019 às 22:23

    Quem quiser ajudar esse eh o link da vaquinha para arrumar a casa dela https://www.vakinha.com.br/vaquinha/541089

  • Adriana negris
    17 Abr 2019 às 14:40

    Sei como é sofro com isso a muito tempo tem dias que minha vontade é de sumi , desaparece aí olha pro lado vejo meu filho que tem 10 anos , tá sendo difícil .

  • Sandra
    15 Abr 2019 às 01:38

    Muito legal essa materia...Sou Amiga da Cris e acompanhei na epoca da Depressão Ela falou comigo Uma vez e é tudo verdade... EU também fiquei com Depressão e Depois que virei blogueira EU sarei... não sei mto o porque isso acontece e desde Então venho incentivando a Cris continuar fazendo os videos que Ela Vai se curar 100% assim como me curei...EU não sei ...mas acho que a nossa vida ganha propósito...o humor alegra as pessoas, o mundo está doente e nos jornais e TVs o que mais se mostra é desgraça pra contaminar mais ainda a mente das pessoas...EU ate elogiei vcs no meu canal por essa materia tão Linda e inspiradoras, parabéns olhar direto por trazer algo de extremo valor...essa materia pode tirar milhares de pessoas que estão com a corda no pescoço e elas vão ver a Luz no fim do tunel... EU ate disse pra Cris...falei Amiga..continua gravando VC é sucesso agorinha ja te descobrem e VC fica famosa...os resultados ja começaram a chegar e fico mto Feliz em ver essa revolução, e isso não tem volta...Agora é só crescer tenho certeza que essa casa logo será arrumada assim como a vida Dela ja esta sendo...Ela merece e tem um coração enorme ..o que vcs veem nos videos é tudo verdade kkkkk EU tbm me curei atrevés do humor, hj EU empodero mulheres e muitas estao saindo da Depressão com

  • DEVANIL
    14 Abr 2019 às 20:56

    me sinto tudo isso cris sinto dores parece que tem um tronco de madeira nos ombro fico intrigada com muita facilidade a 8 ano perdi meu irmão quando eu tava tentando erguer perdi minha filha mais velha do mesmo jeito que meu irmão faleceu com eletricidade ai pra piorar tive que tira o ultero agora meu marido que mora comigo a 20 ano faz declaração de amor a uma mulher que trabalhar com ele não é pra pensa em me mata eu já tentei uma vez nem isso consigo faze tenho 2 criança um e meu biólogo outro e meu neto que crio ele des que nasceu tão com 10 ano ainda penso neles um pouco mais não tô mais aguentando já não sinto vontade de ir ao trabalho vou na marra não sei mais oque fase me ajuda pelo amor de deus bgd desculpa pelo desabafo

  • Marcos Ferreira
    14 Abr 2019 às 14:27

    Parabéns Cris Cuiabá. Adoro teus vídeos. Vc vai fazer muito sucesso. Na verdade já está fazendo A foto teus vídeos

  • Terezinha Lima
    14 Abr 2019 às 10:20

    Cris, te sigo nas redes sociais. Vá em frente. Tudo podemos, tenha fé em Deus e tudo dará certo. Aliás...já está dando. Bjs

  • Cristianne Ferreira Gomes Moraes
    14 Abr 2019 às 05:10

    Uma história quase parecida com a minha, porém são outros tipos de problemas...Mas somos guerreiras e temos Deus

  • fatima
    14 Abr 2019 às 04:51

    GRAÇAS AO GRANDE DR Sunny PARA RESOLVER MEUS PROBLEMAS SEU EMAIL É (drsunnydsolution1@gmail.com meu nome é Miss Fátima, eu era casada com meu marido há 5 anos que vivíamos felizes juntos para este ano e não até ele viajar para a Austrália para uma viagem de negócios onde conheceu essa garota e desde então ele me odeia e as crianças e o amor ela só. então, quando meu marido voltou da viagem, ele disse que não queria mais ver a mim e aos meus filhos, então ele nos expulsou de casa e estava indo para a Austrália ver aquela outra mulher. então eu e meus filhos estavam tão frustrados e eu estava ficando com a minha mãe e eu não estaria tratando bem porque minha mãe se casou com outro homem depois da morte do meu pai, então o homem com quem ela se casou não a estava tratando bem, e meus filhos eram tão confusos e eu estava procurando uma maneira de obter o meu marido de volta para casa, porque eu amo e aprecio muito ele, então um dia como eu estava navegando no meu computador eu vi um testemunho sobre este feitiço DR Sunny, testemunhos compartilhado na internet por uma senhora e me impressionar tanto eu também acho que experimentá-lo. No começo eu estava com medo, mas quando eu penso no que eu e meus filhos estão passando então eu entrei em contato com ele e ele me disse para ficar cal

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