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Segunda-feira, 29 de julho de 2024

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Palavra (En)cantada'' mostra as relações entre música e poesia

Dizer que o Brasil tem grandes letristas é lugar-comum. O documentário "Palavra (En)cantada", que estreia hoje, procura ir além e mostrar o papel histórico que essa alta qualidade desempenha no país.


A diretora Helena Solberg, ecoando depoimento de José Miguel Wisnik, diz que, paradoxalmente, foi por "sermos uma cultura pouco letrada" que houve um salto em direção a letras tão sofisticadas.

Escritor e compositor Chico Buarque em cena de "Palavra (En)cantada", de Helena Solberg
A música tornou-se veículo para transmitir em grande escala material poético de primeira linha.

"Conseguimos dar um jeito de pular o processo. Em vez de esperar que o povo estivesse alfabetizado e letrado, encontramos uma solução de extraordinária criatividade", afirma ela, escolhida a melhor diretora de documentários do Festival do Rio de 2008.

Segundo Solberg, mais do que os outros 15 depoentes, Wisnik, Arnaldo Antunes e Luiz Tatit abriram caminhos para o filme com suas reflexões.

Wisnik, por exemplo, comenta que o encontro perfeito ocorrido entre música e poesia no Brasil do século 20 é algo raro, presente, por exemplo, na lírica da Grécia Antiga e na trova provençal da Idade Média.

"Criou-se uma situação que não existe em nenhum outro país: uma canção popular fortíssima, que ganhou uma capacidade de falar para auditórios imensos e levar a esses auditórios poesia de densa qualidade com a leveza que a canção tem", aponta Wisnik no filme.

Maria Bethânia --a quem Adriana Calcanhotto credita ter conhecido a poesia de Fernando Pessoa-- assume que, ao interpretar poemas em shows e discos, busca informar o grande público sobre a "palavra falada, não cantada".

De outra geração, Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, faz o mesmo ao recitar João Cabral de Melo Neto nas apresentações do grupo.

"Versos para melodias"

É natural que Chico Buarque e Caetano Veloso sejam os mais citados como exemplos da excelência dos letristas. Caetano estava viajando quando o filme foi rodado e não depôs.

Já Chico volta a deixar claro que escreve versos para melodias, não vendo-os como poesia escrita --"O que não impede que tenham qualidade poética".
"Não quero ser chamado de poeta, porque não sou", diz.

Chico ressalta a força dos chamados "compositores de morro", como Cartola, que espelhavam em suas letras alguma formação poética, mesmo que pré-modernista, parnasiana. "Muita gente pode querer falar difícil e não ser um poeta como Cartola", diz Solberg.

Ela, que concebeu o filme a partir de uma ideia de Marcio Debellian, contou com o pesquisador Antônio Venâncio na busca de imagens raras, algo que já marcara o seu "Carmen Miranda: Banana Is My Business" (1995).

Há Dorival Caymmi cantando "O Mar" em filme, Caetano sendo entrevistado nos bastidores do Festival da Record de 1967 e "Morte e Vida Severina", na versão musicada por Chico, sendo apresentada na França.

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