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Professora do Estado se afasta por problemas psicológicos causados com rotina escolar

Da Redação - José Lucas Salvani

28 Abr 2019 - 08:33

Professora do Estado se afasta por problemas psicológicos causados com rotina escolar
“No final do ano, já com as aulas bem no fim, eu tive uma crise dissociativa e amnésia. Eu não conseguia mais ler, eu não dava conta”, desabafa a professora da rede estadual Ana Clara Guimarães*. A profissional da educação se afastou do cargo de professora de sociologia na escola onde trabalhava por conta de um esgotamento de sua saúde mental.

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Ana Clara conta ao Olhar Direto que somente após muitas dificuldades conseguiu retomar a leitura, mas que não tinha alguma ideia do que estava de fato lendo. Ela explica que mesmo com a chegada do namorado em sua residência não foi possível resolver a situação de imediato. Ela tentava falar e ele completava seu raciocínio.

O acontecimento foi determinante para que ela fosse procurar ajuda profissional, em específico um psiquiatra. Segundo seu médico, o episódio em questão se deu por conta de um estado de estresse tão grande a ponto de seu corpo mandar uma espécie de aviso para que ela se afastasse daquilo que lhe faz tão mal.

Professora de sociologia há sete anos, Ana Clara tinha ao todo 20 turmas em uma única escola e, durante alguns dias da semana, chegava a ter uma jornada de oito aulas. Os problemas começaram entre agosto e setembro, com ataques de pânico que se tornaram diários com o passar do tempo. “Vem aquela sensação de que parece que você é invisível e que você não vale coisa alguma”, desabafa.

“Eu comecei a sentir muita pressão e o desgaste no cotidiano. Parece que foi um momento em que eu não estava mais aguentando aqueles problemas que iam acontecendo, somada a outras coisas, como perseguição política, partindo de algumas alunas”, completa.

Os colegas de trabalho, como conta Ana, chegaram a perceber os problemas que ela estava passando porque era comum vê-la chorando pelos corredores da unidade escolar. Alguns até mesmo sugeriram para que ela fosse atrás de algum profissional, mas Ana explica que optou por não procurar ajuda naquele momento para não deixar seus alunos sem professor. Por se tratar de ano eleitoral, a partir de junho a escola não poderia estar contratando um substituto.

A busca por ajuda se deu por ela mesma. O Estado de Mato Grosso, de acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), Valdeir Pereira, não disponibiliza qualquer suporte neste sentido aos profissionais da educação. “O estado é omisso”, declara o presidente em entrevista ao Olhar Direto.

“Infelizmente, o afastamento dos servidores é uma consequência das condições precárias de trabalho. São somativas que a gente sempre trata. Quando vai se agravando os problemas e a impotência de resolver por parte do servidor, aí acaba tendo afastamento, depressão, e em alguns casos até mesmo suicídio”, explica.

Ana Clara acredita que o estado deve prover suporte aos professores e alunos quanto a problemas psicológicos causados por conta da rotina escolar. “Tem que ser repensado tudo porque essa questão é uma consequência da estrutura da educação, que é falha e falida. (...) Não tem suporte nenhum. Não tem assistência social na escola, não tem psicólogo, não tem nada. Se a gente não tiver dinheiro para pagar um psicólogo ou psiquiatra, você continua indo doente”.

Por meio de nota ao Olhar Direto, a Secretaria de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) esclarece que existe uma equipe psicossocial que atende os profissionais da educação quando acionada pela escola. “Ocorre quando o servidor apresenta casos como quadro de tristeza profunda ou comportamento inadequado para o ambiente de trabalho”, explica.

A secretaria ainda afirma que não faz os tratamentos, mas orienta o servidor procurar um médico que irá indicar o afastamento, fazendo o acompanhamento da rede e monitoramento no sistema de Gestão de Pessoas (GPE) do período em que o profissional ficará em tratamento.

Indisciplina nas escolas

A indisciplina dos alunos é um dos fatores que também contribuem para os problemas despontados nos professores. Na última quarta-feira (27), uma estudante de 36 anos foi detida após ofender uma professora e arremessar seu celular na cabeça de um segundo professor, que também é policial civil.

Segundo informações do boletim de ocorrência, a aluna teria se irritado com a professora porque não havia lançado sua nota no sistema, que estava em manutenção. A estudante começou a proferir palavras de baixo calão e quando o professor policial interviu, dando voz de prisão, ela teria arremessado um celular em sua cabeça. O caso ainda está sendo apurado pelas autoridades.

Valdeir Pereira defende que é competência das gestões educacionais evitar com que tais problemas se agravem. “A peça chave desse processo é uma gestão que quando está antenada ao problema social que é a violência, ela estando presente dentro da escola, e a tratativa que ela dá a isso”.

O presidente da Sintep recomenda que em casos mais extremos de indisciplina, que configuram crime, o professor procure a Policia Militar e seja feito um boletim de ocorrência, se tratando de alunos maiores de idade. Para alunos menores, é recomendado procurar o Conselho Tutelar ou o Ministério Público da Infância e da Juventude para intervir de alguma forma.

Confira a nota da Seduc na integra abaixo.

Em relação aos casos de afastamentos de professores por problemas de saúde, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) informa que:

Uma equipe psicossocial atende os profissionais da educação assim que a unidade escolar solicita. Isso ocorre quando o servidor apresenta casos como quadro de tristeza profunda ou comportamento inadequado para o ambiente de trabalho. A equipe vai ao local e faz o relatório.

Dependendo do quadro, o servidor é orientado a procurar um médico que poderá indicar o afastamento.

A Seduc faz o acompanhamento da rede. Isso ocorre quando o servidor é encaminhado para tratamento de saúde apresentando os laudos patológicos.

Através dos laudos, a Seduc faz o monitoramento no sistema Gestão de Pessoas (GPE) do período em que o profissional ficará em tratamento.

A Seduc informa que não faz tratamento clínico, apenas encaminha para o tratamento.


*Nome criado para preservar a identidade da vítima.

32 comentários

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  • Gustavo
    29 Abr 2019 às 17:44

    Precisa ser muito burro pra por a culpa do país nas costas dos professores e não dos prefeitos, governadores, presidente. Os professores adoecem pelo esforço físico e mental de lidar com crianças e adolescentes mal educados nas famílias. O professor não vai salvar seu filho do destino de ignorância que lhe abraçou.

  • Cilene Sandrini
    29 Abr 2019 às 16:56

    Atestado médico só no funcionalismo público. Na iniciativa privada ralamos! Nós que carregamos o Brasil!

  • Tatiane
    29 Abr 2019 às 15:13

    Quanta gente especialista em psiquiatria, psicologia aqui pra dar pitaco, eu hein! O fato de ser servidor público invalida o problema de saúde, é isso? Só porque a pessoa é servidora acham que ela não está sujeita a problemas como todos os outros? Depressão e problemas mentais atingem qualquer um, não importa se é CLT ou concursado. Só quem tem depressão sabe o quanto ela é ruim...

  • Batista Jr
    29 Abr 2019 às 13:31

    Infelizmente não é um caso isolado. Vi servidores públicos que pegam atestado para viajar, passear. Mi-mi-mi de funcionários públicos. Privatização e terceirizaçao total.

  • Berenice Laundrey
    29 Abr 2019 às 13:31

    Professorzinho magoadinho pede demissão e vem ver o que é trabalho na área privada.

  • alex r
    29 Abr 2019 às 11:10

    Ate onde vai a demência de certas pessoas... A pessoa relata um caso , esta sofrendo, mas ao invés de refletirem sobre a situação informada distorcem os fatos.... Dos que comentaram contra a situação quantos tem formação em psicologia, psiquiatria ou área de saúde afim para falar ? Senhores a incapacidade de vocês mostra o motivo de certos profissionais ficarem doentes... Vão se tratar !

  • Moacir
    29 Abr 2019 às 10:01

    A verdade é que grande parte da população está sofrendo de alguma doença psicológica. Mas infelizmente muitos usam uma doença pra se afastar do trabalho. Inclusive professores. Alguns estão na rede pública e na privada. Pega atestado da rede pública e continua trabalhando na privada de Boa. Sem falar que alguns levam uma vida normal, até viajam. Só não podem trabalhar. No meu setor tem vários de licença médica e nas redes sociais postam fotos de farras e viagem. Sobrecarregam colegas com excesso de trabalhos. Por tanto, a solução para os doentes, seria passar por uma junta médica, aposentar quem não conseguem trabalhar.

  • Simples assim
    29 Abr 2019 às 06:40

    Lendo os comentários aqui fico pensando como a inveja dói dentro daqueles que não trabalham para o governo generalizando total um julgamento incrível , falar que servidor público nao trabalha eu formei em 2014 comecei a dar aula em 2015 e nunca dei um atestado até hoje então vão lavar vasilha, limpar uma casa,lavar uma roupa que vocês ganham mais ,existem professores que vive no atestado existe sim ,agora vir generalizar aí já é de mais respeitem mais os que trabalhavam de forma correta e honesta porque muitos mas muitos por aí trabalham desta forma.

  • Marcia Gouveia
    29 Abr 2019 às 05:40

    Infelizmente este caso não é isolado. A carga horária de trabalho tem sido estafante. Pior num país como este é que tem gente que acha que professor só trabalha quando está em sala de aula. Geração de pessoas ignorantes, que não estudaram e ainda desestimulam outros a estudar. Devem achar que o conhecimento do professor já vem pronto, como se não tivesse que pesquisar, ler, se informar, se atualizar, para dar aula. Estudantes hoje sonham com uma formação que eles não dão conta de ter. O acesso à escola hoje é muito maior, mas estudar química, física, matemática é para quem dá conta. O mesmo para geografia, história, biologia. Tem empresário que, mesmo sem ter estudado, se vangloria de ter dado certo na vida. Mas se esquece ou não sabe que o carro que ele dirige teve um engenheiro, um químico, um físico, um administrador para fazer o carro dele chegar até sua garagem. Não entende que o ar condicionado da sala dele também teve engenheiro elétrico, engenheiro mecânico, tudo isto, para a sala estar refrigerada. Desconhece que o alimento que compra no mercadinho da esquina teve um agrônomo, biólogo, químico aplicando conhecimento para produção. A água que chega na casa dele teve um engenheiro sanitário e um engenheiro químico. O sabonete que ele usa teve um farmacêutico e outro quími

  • Cidadã
    28 Abr 2019 às 22:10

    Vejo aqui muita maldade nos comentários e nenhuma caridade. A humanidade está esfriando o coração. A única coisa que vi foram apontamentos. Só não se esqueçam inquisidores que o dedo que vocês apontam tem mais quatro virados em suas direção. Cuidado com a lei do retorno, hoje é essa senhora, amanhã pode ser vocês ou um ente querido. Deus esteja com essa professora dando a ela conforto e recuperação. E a todos que aqui lerem tenham mais amor ao próximo. Que Deus abençoe a todos, porque o sol nasce para os bons e maus. Pois julgar cabe a Deus e não a nós.

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