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Terça-feira, 13 de abril de 2021

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ESPECIAL MULHERES NA PANDEMIA

Em meio à pandemia, diarista cria empresa para oferecer serviços: “É sobre poder estar em qualquer espaço”

Da Redação - Marcos Salesse

08 Mar 2021 - 11:50

Foto: Marcos Salesse / Olhar Direto

Em meio à pandemia, diarista cria empresa para oferecer serviços: “É sobre poder estar em qualquer espaço”
Com nome de estrela, Sol de Maria é uma das 5,7 milhões de brasileiras que atuam na área do trabalho doméstico no país. Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2018. Essa mesma pesquisa, agora feita em 2020, apontou que mais de 700 mil empregos deste tipo de serviço foram perdidos durante a pandemia. Driblando as dificuldades impostas pelo novo tempo e também pelas barreiras sociais, a estudante do sétimo semestre de História viu em seu próprio nome uma oportunidade de renda. 

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“Trabalhava em uma empresa de telemarketing e acabei saindo dela. Fiquei um tempo vivendo de seguro, até que surgiu a oportunidade de limpar o condomínio da avó de uma ex-namorada. Aí meti a cara e fui”, conta Sol ao rememorar seu início como diarista. Enquanto realizava serviços em uma residência e outra, Sol teve a ideia de criar a Iluminar Limpeza. 

Atuando na área da limpeza residêncial, a Iluminar se tornou a marca de Sol, e é por meio dela que a estudante oferece serviços como diarista. A iniciativa da jovem reúne atualmente apenas ela e sua irmã, Barbara Ricciotti.

Sol segurando o cartão de visita da Iluminar Limpeza.

O pequeno negócio foi uma forma encontrada pela estudante para garantir sua renda durante o período da pandemia. Apesar dos inúmeros riscos de infecção, Sol abre espaço para uma realidade que atravessa a vida de muitas trabalhadoras. “Tento sempre seguir todas as medidas de segurança, mas preciso trabalhar, então eu vou”, afirma. 

O contexto apresentado pela diarista mostra uma face delicada da pandemia, com a exposição ao risco em paralelo a necessidade de garantir o fechamento das contas no final do mês. Em março de 2020, essa equação resultou na primeira vítima fatal da Covid-19 no Rio de Janeiro, uma mulher de 63 anos, que trabalhava na casa de uma família no bairro Alto Leblon, área considerada uma das mais caras para se viver no país. 

Além do receio e das incertezas, Sol de Maria também relembra a desvalorização histórica que atravessa o trabalho doméstico. “Vejo sempre em grupos de domésticas no Facebook, pessoas querendo contratar diaristas por R$ 60 ou R$ 70, sabe. É o tipo de pessoa que vai comprar uma calça e não vê problema em pagar R$ 300, mas vê problema em pagar R$ 140 ou R$ 150 em uma diária”, revela. 

Durante sua trajetória, relatada diariamente em um perfil no Instagram, Sol busca pautar a valorização constante do trabalho que desempenha. “O trabalho doméstico exige um nível de complexidade como qualquer outro. Não é qualquer pessoa que faz uma boa limpeza, que presta atenção nos detalhes, então eu tento sempre pontuar isso”, compartilha a estudante. 

Questionada sobre a constância de ofertas com baixo retorno financeiro, a diarista reforça que essa é uma questão cultural. “Muitas pessoas aceitam diárias com valores baixos, e muitas delas são mulheres que vivem em uma situação de vulnerabilidade econômica. Essa prática de desvalorização é cultural do nosso país, é histórico”, afirma. 

"É sobre estar em qualquer espaço"

“Eu me coloco como trans, como travesti, sempre. Isso é político para mim, então os olhares sempre surgem, eles sempre existem”, diz Sol ao comentar sobre as experiências que já passou em alguns locais de trabalho. A estudante conta que em uma dessas casas precisou lidar com momentos de constrangimento. 

“Em uma das primeiras casas que fiz, uma mulher me contratou e chegando lá o filho dela perguntou ‘mãe, é um menino ou uma menina?’, e eu via uma certa vergonha dela dizer ‘é uma menina’, então surge. Isso a gente sente”, conta. 

Para a diarista, criar a Iluminar é também uma forma de mostrar que mulheres trans e travestis são versáteis e podem atuar em qualquer espaço. “É sobre poder estar em qualquer espaço. De uma certa forma a Iluminar é um pouco isso, mostrar que é uma travesti que tá falando de trabalho doméstico”, disse. 

Ainda de acordo com Sol, sua realidade não é a máxima quando observamos o cotidiano de outras mulheres. “Hoje posso falar que a Iluminar me dá renda, mas existem outras muitas que não tem renda, muitas vezes acabam na prostituição porque elas não são inseridas no mercado de trabalho”, afirma. 

Dia das mulheres, no plural

“Somos a beleza ressignificada quando dizem que não somos belos”, escreveu Sol em uma publicação no Instagram celebrando o Dia da Visibilidade Trans, comemorado anualmente no dia 29 de janeiro. Para a diarista, essa frase parte de uma auto análise. “Essa frase fala muito da minha autoanálise como mulher, como travesti, inserida nesse universo da mulheridade”, reforça. 
 

Para a estudante, o Dia das Mulheres é um momento importante para valorizar a luta por equidade de direitos, entretanto, a invisibilidade ainda coloca as mulheres trans e travestis à margem desta data. “Acredito que de fato as mulheres trans são invisibilizadas nesses processos de uma data como essa, mas apesar disso nós existimos e atuamos”, disse. 

Dentro desse universo, Sol coloca um questionamento que acompanha seu cotidiano: “O que é o Dia das Mulheres enquanto 90% de nós ainda está na prostitição?”. Com essa pergunta, a diarista afirma que a inserção de mulheres trans e travestis nesta comemoração é importante, entretanto, existem outras demandas mais urgentes. “Tem muita coisa que precisa ser discutida e arrumada dentro desse processo. É importante, mas não é a grande questão, existem outras demandas muito mais urgentes”, comentou. 

“Criei minha própria oportunidade"

Completando aproximadamente seis meses de existência, a Iluminar Limpeza é para Sol sua “própria oportunidade”. “Hoje trabalho de forma autônoma porque tenho certeza que seria muito difícil ser contratada por uma empresa. Sinto que eu criei minha própria oportunidade”, disse. 

Em seu relato, a diarista afirma que para muitas o empreender acaba sendo a única saída diante de um mercado de trabalho que fecha as portas para profissionais como ela. 

Além de realizar serviços de limpeza, Sol também movimenta um perfil no Instagram com conteúdos voltados para a área do trabalho doméstico. Para criar a página, a estudante contou com a ajuda da irmã, que colabora com a montagem de todas as publicações. Na página os seguidores encontram dicas de limpeza, além de acompanhar a rotina de trabalho da diarista. 

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