Olhar Direto

Sábado, 16 de dezembro de 2017

Notícias / Educação

Estagiários denunciam trabalho no Hospital Júlio Muller: “mão de obra barata, quase escrava”

Os estudantes contam que na prática trabalham em troca de alimentação, já que não recebem bolsa, e só o almoço é pago pelo HUJM

Da Redação - Lázaro Thor Borges

13 Ago 2017 - 10:33

Foto: Reprodução/Graci O. Miranda

Estagiários denunciam trabalho no Hospital Júlio Muller: “mão de obra barata, quase escrava”
Os estudantes de medicina que estagiam no Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM) denunciam que são utilizados como ‘mão de obra barata’ pela empresa pública que está a frente da gestão da unidade de saúde. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que foi implantada no HUJM em 2012, administra diversos hospitais no Brasil.

Leia mais:
Tribunal aponta falhas no hospital Júlio Müller e faz recomendações


Ao Olhar Direto, os estudantes relataram que realizam um trabalho desgastante, com carga horária excessiva e obrigação do cumprimento de prazos e metas superior à capacidade laboral. Eles explicam que, além de terem de trabalhar no mesmo ritmo que um médico profissional, não recebem bolsa pelo serviço prestado. O dinheiro, que seria em torno de R$ 400, é convertido em alimentação.

“Em último lugar está a educação. Somos usados como mão de obra barata mesmo, quase escrava. A gente passa por coisas ali dentro sem ter o mínimo de amparo psicológico. Conheço ‘N’ colegas que estão tomando antidepressivo”, conta Angélica, que pediu para ter o nome verdadeiro preservado.

Depressão e excesso de trabalho

Sobre a carga horária excessiva, os estudantes dizem que na prática o período de trabalho cumprido é diferente do que é previsto em contrato. O problema, somado a todos os outros denunciados, tem ocasionado doenças psicológicas nos estagiários.

“A carga horária no papel é uma coisa e na prática é outra. No papel a gente trabalha bem menos do que na prática. Isso tudo deixa um ambiente bem insalubre, a gente sabe que na medicina é uma pressão maior, mas lá no hospital nada ajuda, o ambiente é hostil. A maioria dos colegas que eu conheço começa a tomar antidepressivo nesta época do estágio, porque é muita carga de serviço, é muita pressão, é complicado”, conta Luís, que também preferiu não se identificar.

O medo de ter o nome publicado ocorre principalmente porque os estudantes temem que a gestão do hospital passe a persegui-los por contarem a que tipo de trabalho estão submetidos ou por reclamarem formalmente com a administração. As histórias de represálias contra estagiários que denunciaram ou se revoltaram pela maneira como a unidade é tocada são recorrentes, dizem eles.

“Teve um colega nosso que tentou mudar esta situação porque ele viu que o tanto de horas que ele trabalhva era diferente do que estava no papel, e ele começou a fazer o que estava previsto e saindo no período certo, mas isso gerou uma revolta enorme no hospital, e é o que sempre acontece. Dentro do ambiente que a gente trabalha quem reclama disso acaba muito criticado. Então nós ficamos sem ter muito o que fazer”, explica Luís.

Caráter privativo

Apesar de ser uma empresa pública, o caráter ‘privativo’ da Ebserh também faz parte do rol de reclamações. Os estudantes defendem que a instituição se preocupa mais com os gastos do que com a valorização e humanização do atendimento. Segundo eles, a falta de ‘humanização’ no trabalho também é visível pela extinção do Conselho Gestor, que permitia a participação de um representante dos estagiários nas discussões sobre o futuro do HUJM.  

“Com a chegada da Ebserh esse conselho foi extinto. Colocaram um superintendente, e a partir de então o único cargo que a gente tem é na comissão do internato, que não é deliberativa, e a gente não tem nenhum contato com a gestão do hospital. Tudo é feito em instâncias hierárquicas superiores que a gente não consegue ter acesso. A gente não participa das decisões dos hospitais e não ficamos sabendo delas”, conta Reginaldo, outro estudante que teve o nome alterado para preservar sua identidade. 

Outro lado

A reportagem do Olhar Direto entrou em contato com a assessorida da Ebserh para verificar qual o posicionamento da empresa em relação às denúncias e às reclamações dos estudantes. Em nota, a Ebserh respondeu que o cumprimento de prazos e metas é natural no estágio e que a lei não prevê que seja pago remuneração pelo estágio de 12 horas por dia. 

Veja a nota completa:  

A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e o Hospital Universitário Júlio Muller esclarecem que os estágios fazem parte do currículo dos cursos dos estudantes na universidade. A estratégia de ensino-aprendizagem é o ensino em serviço, ou seja, o acadêmico vai realizar determinados procedimentos no intuito de adquirir competência técnica para a profissão escolhida.

Cabe ainda ressaltar que os estágios na unidade se pautam na Lei nº 11.788, que dispõe sobre Estágio dos Estudantes, e a Resolução do Consepe nº 117/09, que trata das normas do estágio na UFMT. Ambas normativas não incluem a remuneração por meio de bolsa para estágio.

Com relação à colocação de "cobrança por cumprir prazos e metas", essa se refere às exigências que os estagiários precisam cumprir para obtenção das habilidades necessárias para sua formação profissional. Essa cobrança corresponde ao planejamento pedagógico que estabelece prazos e metas, em conjunto com as necessidades de um hospital.

Sobre a alimentação, vale destacar que ela não funciona como forma de pagamento, mas cumpre regulamentação do Ministério da Educação, de manter a alimentação dos estagiários que cumprem carga horária de 12h na modalidade plantão.

Ainda reforçamos que as opiniões dos estudantes não foram reportadas às instâncias correspondentes do hospital, que se colocam à disposição dos estudantes para quais quer esclarecimentos adicionais.

 

23 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Olhar Direto. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Olhar Direto poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

  • Marcia
    15 Ago 2017 às 07:36

    Briseiros que só querem moleza, melhor largar a medicina e não expor pacientes a erros e mau atendimento.

  • Vanessa Siano Da Silva
    14 Ago 2017 às 18:34

    Triste ver a interpretação que estes alunos estão dando a oportunidade que o Ensino em serviço proporciona. Conhecimento sedimentando, a oportunidade de viver , conviver , sentir o dia a dia do paciente, não tem preço. Sou ex - aluna e com muito orgulho digo que o HUJM foi meu segundo lar e meus professores e residentes , mestres e família pra vida inteira. E ao contrário do que querem os atuais alunos , ficava ansiosa por procedimentos e as vezes ultrapassava o horário desses plantões com gratidão aos que me deixaram ficar e aprender mais . A vida , a prática aliada ao estudo são extremamente eficientes em manter o conhecimento vivo. Como a colega mencionou, também fui de turmas passadas , sem smartphone , com computadores em disquete no máximo, acesso mais difícil a informação e mesmo assim, adoravamos o tempo com o paciente. A vontade sempre de voltar para a instituição que tanto me deu e poder contribuir, só não o faço por não residir em Cuiabá. Felizmente o que vejo em meus alunos no Campus de ROO é uma realidade diferente. Lutam por oportunidades de ter um hospital escola , fazem hora extra e quando há oportunidade de acompanhar um serviço não pensam duas vezes. Tomara que esses alunos do meu querido HUJM repensem essa colocação e possam perceber o conhecimento e a se

  • João
    14 Ago 2017 às 10:26

    Estagiário querendo moleza? senta no pudim.

  • MARCIO RIBEIRO PEDROSO
    14 Ago 2017 às 07:13

    ta choramingando caros alunos bebe leite.....o negócio é ralar mesmo para aprender.

  • Sampaio
    14 Ago 2017 às 07:13

    É isso ai , quando se implantou essa terceirização o Governo de Dilma não se viu movimentos e protestos contra as terceirizações foi aprovado em coloios com os sindicatos , então agora aguentem e podem apostar isso só vai piorar , o " SINTUF " na época ficou caladinho , que só reagiu agora no Governo Temer com medo de se terceirizar todo os setores administrativos e técnicos .... Não vão fazer greve , cade os protestos , cade os mascarados ....

  • Luan
    13 Ago 2017 às 22:09

    A Ebserh abriu concurso e eles não estam convocando os aprovados, tem vários medicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais contratados sem concurso, muitos estagiários ou bolsistas de residência que fazem função de concursados, com isso acabam não chamando os aprovados, muita corrupção envolvida!

  • Julia oliveira
    13 Ago 2017 às 21:34

    Essas pessoas que reclama de estarem aprendendo são os futuros péssimos profissionais que teremos no futuro. Se esquecem que estão estudando com o nosso dinheiro . De graca . Que vão para escola privada e paguem para estudar daí quem sabe sejam menos exigidos . Bansonde cagabundos

  • PARA O ANTONIO
    13 Ago 2017 às 20:01

    Não tem nada a ver com cotas não. Por gentileza, não destile seu veneno. Eu sou cotista e ralo 100x mais que o de ampla concorrência. Há muitos ali que vivem na vadiagem, em bar, festas, eventos da atlética tudo sendo bancando pelos pais para vidinha morgada.

  • Jussaea
    13 Ago 2017 às 19:43

    O HUJM sempre teve como característica o empenho e a dedicação de seus alunos que neste pequeno Hospital sempre conseguiram ganhar o Respeito ao disputar as vagas de Residências Brasil afora. Talvez esta seja uma geração que cresceu imaginando a Medicina com Olhar Mercantilista , e que não consegue se doar para o que trará conhecimento , experiências e um melhor olho clínico no futuro. Fui ex-aluna do hospital num momento em que tínhamos 1/4 do número de alunos atual ( éramos apenas 20/ turma) e o mesmo número de pacientes internados , o resultado disto: Uma paixão crescente pela profissão, gratidão pelo Corpo Docente e pela instituição tanto que um dos meus sonhos era fazer parte deste corpo clínico e me sinto privilegiada por estar e ser continuando como Medica Assistente do Julio Muller há 15 anos . Desde a época da residência dizia: nunca estarei parada , descansando num hospital com tantas necessidades, mas não consigo " correr atrás " da preguiça de quem não me acompanha.Pelo visto este pensamento ainda tem que ser verdadeiro. Como ainda digo: " O Julio Muller é a nossa escola da Vida" como mensurar o Olho Clínico e a Formação completa de um médico? Talvez se estes alunos não se escondessem em " codinomes" poderíamos acompanhar como será o futuro destes profissionais qu

  • Carlos Henrique
    13 Ago 2017 às 19:25

    Assim como a Simone Sampaio, sou aluno da XXXVII turma de Medicina, turma está que conquistou o título de melhor curso de medicina bom ano em que fizemos o provão ao final de nosso curso. E assim como o Felipe Zarour, também sou concursado pela EBSERH lotado na Clínica cirúrgica dessa instituição. E como ele, muito me entristece ver queixas como essa, visto que muitos ali se desdobram para continuar fornecendo uma educação de qualidade, quando percebemos que o que os alunos querem é baladinha e ir pra cursinhos pre-residência em detrimento do seu ensino prático. Vejo exemplos de professores como do Dr Eduardo Delamonica Freire continuarem sua MISSÃO de ensino enquanto os alunos não se esforçam pelo mínimo de aprendizado. Mas somos brasileiros e não desistimos nunca. Vamos tentando mudar os rumos da educação, nadando contra a maré! Não poderia deixar de parabenizar os bons alunos que ainda temos. Que, graças à Deus, Ainda são maioria na Medicina UFMT

Sitevip Internet