Olhar Direto

Terça-feira, 23 de julho de 2019

Opinião

Os bailes de ruas em Cuiabá

Autor: Wilson Carlos Fuáh

11 Jul 2019 - 08:00

Em Cuiabá existiam aquelas festas dançantes chamadas de “brincadeiras dançantes” e matinês aos domingos, e através dos sons das Sonatas, e pelos bairros era comum encontrar grandes bailes, denominadas de “famosas festas dos bairros”, e que se transformavam em festa da cidade, dançava-se o dia todo ao som de Renato e seus Bleu’s Caps, os Milionários, Demônios da Garoa, Roberto Carlos e toda a Jovem Guarda; The Fevers era o hino musical daquele mundo dançante dos anos 60 e 70.

E os jovens namoradores, os chamados bons de “bicarias”, estes conseguiam ter uma namorada em cada baile, quantos casamentos não saíram dali? Cuiabá era uma festa só, as drogas ainda não existiam, as bebidas eram simples e baratas, bebiam-se a famosa Cuba Libre e o Ponche ( mistura de vinho, maçãs cortadas – e colocada em fervura), fumam-se apenas os cigarros: Continental, Hollywood e Hilton longo, e a maconha, ninguém sabia o que era. 

Mas, existia um jovem, que tinha os seus problemas, e por isso recebia um monte de apelidos, o mais usado era de Dito Bode Expiatório (hoje denominado de bullyng). Ele recolhia-se dentro do seu interior, e na sua moradia espiritual, escondia sua tristeza, era de dar dó vê-lo sem alegria a assistir a alegria de todos, e no seu mundo introspectivo ficava sempre a olhar as danças do lado de fora, achando que ele nunca seria convidado, não se enturmava, vivendo sua vida deslocada e na sua tristeza, e fica a “sapear” pelas janelas, a alegria dos outros jovens contemporâneos se divertindo. Assistia aos encontros dos pares, que apesar de estar presente, vivia a viajar pelo mundo invisível dos sons Hi-Fi e das letras das músicas simples dos tempos dourados. Mas, Dito ficava pensando porque só ele não era convidado para essas festas, às vezes até tentava entrar, mas sua introspecção era transformada em portaria imaginária que barrava sua entrada. 

Quantos não vivem como Dito, e pensam que a vida é uma alegria em forma de festa, mas ficam parados no tempo esperando o seu convite, e operando o seu próprio observatório social, pensando que tudo está perfeito para os outros, mas para ele não. 

Todos querem uma resposta sobre a vida. As pessoas estão muito preocupadas com as respostas, mas, no entanto não estão preparadas nem para fazer perguntas. Existem pessoas procurando o sentido da vida em livros, como fosse possível encontrar todas as respostas. Querem respostas, mas por não saber ler as mensagens periféricas, deixam passar muitas coisas simples que estão embutidas na verdadeira razão de viver, ou seja, partilhar e acertar os passos da dança no baile da vida, porque vivemos das adaptações e dando os passos conforme a música. 

Como Dito, existem muitas pessoas assistindo a festa pela janela da vida e esperando o seu convite que nunca chega, estão sempre querendo sentir o que os outros estavam sentindo, mas diferentemente ao processo existencial de Dito, temos que fazer as nossas festas interiores, vivendo dos momentos felizes e por não saber partilha-los, não tem como aumentará a satisfação de viver. 

Estar vivo já é uma grande razão para ser feliz, quem nasce já está incluso entre aqueles que fizeram o pacto existencial e tem a sorte de poder viver, ninguém precisa de auxílios e bengalas, o importante é ser correto e justo, para não ter arrependimentos e não passar os dias vivendo como Dito, que assistiu pelas janelas, mas não participou dos bailes cuiabanos, pois foi transformado por ele mesmo, no Bode Expiatório da sua própria vida.

Wilson Carlos Fuáh – É Especialista em   Recursos Humanos e Relações Sociais e Políticas.Fale com o Autor: wilsonfua@gmail.com  
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