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Filha de mestre de obras e costureira: Conheça a cardiologista que trouxe R$1,2 bi para a Unimed em 2017

Da Redação - Isabela Mercuri

12 Abr 2018 - 14:09

Foto: Rogério Florentino Pereira/ Olhar Direto

Filha de mestre de obras e costureira: Conheça a cardiologista que trouxe R$1,2 bi para a Unimed em 2017
Suzana Palma é cuiabana de ‘tchapa’. Nasceu no bairro Santa Helena, há 47 anos, quinta filha de um mestre de obras e de uma ajudante de costureira. Antes de completar quinze anos, todos os seus irmãos tinham morrido, seja por doenças, seja por acidente. Foi ajudante de parteira, viveu por anos no convento, e aos dezesseis passou – contra a vontade de seus pais - no vestibular de medicina. Contrariando as estatísticas, ela é, hoje, diretora de mercado da Unimed Cuiabá, concursada do Hospital Julio Muller, e conta que o que mais gosta na vida é estar em uma UTI. “Não há nada mais gratificante do que você encontrar uma pessoa que tenha dor, e você tirá-la”.

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Trabalhando em dois empregos, a médica se instala, hoje, em uma sala próxima à presidência da Unimed, quando não está de plantão na UTI. Em entrevista ao Olhar Conceito, ela contou sua história de superação. “A medicina veio muito naturalmente pra mim. Talvez pra quem olhe de fora pode pensar que não, mas pra mim veio muito naturalmente. Nós éramos uma família relativamente grande, meus pais tiveram cinco filhos, eu sou a quinta, a caçula, e os quatro irmãos antes de mim faleceram. Então eu cresci num meio onde sempre havia uma doença”, lembra. Dois irmãos de Suzana faleceram juntos em um acidente de carro, a irmã morreu aos seis anos de idade, de complicações decorrentes de uma pneumonia, e o irmão mais velho morreu aos 23 anos, de tumor cerebral.

A doença só não foi mais presente em sua vida do que a cura. Desde criança, Suzana observava, em seu bairro, o trabalho de uma técnica de enfermagem que atendia todos os vizinhos. Aos dez anos, viu seu primeiro parto, e aos onze, aparou a primeira criança, sempre ajudando esta técnica. A reação de seu pai foi categórica. “Sabe o tabu? Que eu era menina, já tinha visto um parto, que isso não era coisa que uma menina virgem visse... aquela visão de papai”, conta.

Como consequência, Suzana foi mandada para o convento, o Seminário Salesiano São José, em Campo Grande. Lá, tratou de se juntar a uma freira que fazia curativos voluntariamente no Hospital do Fogo Selvagem e começou, de fato, a ver processos, métodos, e a rotina dentro de um hospital. Três anos depois, no entanto, seu irmão mais velho faleceu. “Meu pai disse assim: ‘eu não vou perder todos os filhos!’. Foi lá no convento e me buscou. Eu já tinha 15 anos. Aos 15 anos eu já tinha na cabeça que eu queria fazer medicina”.

Chegando de novo em Cuiabá, Suzana, que sempre foi uma aluna exemplar, passou no vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aos dezessete anos. Os pais não gostaram, preferiam que ela estudasse pedagogia, economia ou direito (o que deu em um teste vocacional). “Porque na cabeça de papai o curso de medicina era só pra gente rica, e ele não tinha coragem de falar pra mim que ele achava que ele não ia conseguir pagar um curso. Mas não era nem questão de pagar, porque era federal, você não paga. Mas ele achava que não ia dar conta de uma filha estudando medicina, [por causa dos] livros”.

Um ano e meio após o falecimento de seu irmão, logo depois que havia passado no vestibular, a mãe de Suzana também faleceu, por causa de um câncer. A situação, então, ficou ainda mais difícil, mas ela persistiu, e se formou em 1993, aos 23 anos. Logo na sequência, passou no concurso para fazer residência clínica no Hospital Julio Müller e, em seguida, na especialização em cardiologia, no Hospital Santa Cruz. “Porque eu achava que era a área que eu mais poderia ajudar as pessoas. Eu tinha muita habilidade pra parte cirúrgica, mas eu pensava assim, onde de fato eu mudo? A cardiologia é, pra mim, a especialidade que te permite transitar em todos os lados”, explica.

Ao terminar a especialização, já com certa condição financeira, Suzana deixou uma pessoa cuidando de seu pai (que já era diabético) e foi para São Paulo, onde se sub-especializou em arritmias e marca-passo no InCor (parte do Hospital das Clínicas e campo de ensino e de pesquisa para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, USP).

Dois anos depois, ela já estava de volta a Cuiabá, para começar, agora, um mestrado na UFMT, no Instituto de Saúde Coletiva. Seu estudo foi sobre a doença de Chagas, uma das que mais afetam o coração e dão distúrbios arritmológicos. Passou também no concurso para médica do Hospital Julio Müller.

Suzana começou a trabalhar no Hospital Geral, da Universidade de Cuiabá (UNIC), onde foi diretora técnica por três anos. Foi lá que começou o que ela considera sua maior contribuição para o estado de Mato Grosso, a criação de mais de vinte programas de capacitação para médicos recém-formados: oito programas de residência médica na Universidade de Cuiabá, cinco no Hospital Santa Rosa, um no Hospital de Câncer, além de supervisões técnicas no Hospital Regional de Cáceres, no de Rondonópolis, e no Hospital Metropolitano.

“No Hospital Julio Müller, mais recentemente, eu fui diretora clínica durante três anos. Eu digo que na UFMT eu fui aluna, residente, professora substituta, mestranda, me tornei efetiva pelo concurso como médica, e depois fui diretora clínica do hospital”, afirma.

Em 2016, um novo desafio apareceu em sua vida. Suzana decidiu ir para a Unimed trabalhar na parte educacional, mas foi surpreendida. “Quando eu vim pra cá, comecei a integrar o movimento pra fazer uma nova gestão na Unimed”, conta. “Comecei a falar o que eu pensava, o que eu achava, aí o então presidente, que na época era candidato a presidente, falou pra mim: ‘Suzana, eu acho que você poderia entrar na diretoria de mercado”.

Sem nenhuma experiência nessa área, a cardiologista aceitou o novo desafio, e foi estudar. O grupo integrado por ela foi eleito pelos mais de 1400 médicos da Cooperativa, e substituiu outro, que estava no ‘poder’ há doze anos.

“E aí, qual foi a minha surpresa? Eu entrei aqui, comecei a me apaixonar por essa área! Desta parte de fazer e buscar a sustentabilidade da empresa. Porque eu determino a minha área, a sustentabilidade. É daqui que entram os recursos que sustentam a Unimed”.

Mesmo durante a crise que o país passou, a diretora tem orgulho de dizer-se satisfeita. “Em 2017 foram 6,5% de crescimento, e foi fruto das nossas estratégias”, conta. “Eu posso dizer que a minha equipe trouxe pra Unimed 1,2 bilhões o ano passado em arrecadação, seja com a venda de planos de saúde, com as mensalidades, com nosso serviço de farmácia e distribuidora e medicina do trabalho. Crescemos em todas as áreas”.

Para o futuro, ela pensa em melhorar áreas que ainda considera problemáticas, como a prevenção, e em fazer um doutorado para entender o comportamento dos pacientes. “Eu tenho uma população, que são os clientes da Unimed. Nós precisamos encarar esta população que não faz consulta, que não vai ao médico, que está levando a vida seguindo a onda e o vento. Essas pessoas são o objetivo nosso. Alcançá-las antes delas chegarem ao ponto de terem as vidas ceifadas por uma doença grave, ou então terem um limite na qualidade de vida”.

Além de todas as opções de estudo e dos objetivos que quer alcançar enquanto diretora, ela continua atuando como médica dentro da UTI, o que não abre mão. “Eu lembro quando eu cuidei do primeiro infartado. Que a gente fez a medicação, e ele estava com muita dor, muito desconforto, o eletro todo alterado. Quando eu fiz a medicação nele e passou a dor, e o eletro normalizou... Aquilo ali me fez ver: eu nasci pra isso”, finaliza.

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