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Quinta-feira, 20 de junho de 2024

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O paraíso é logo ali

Saindo de Cuiabá pela BR-163, o fim da linha é de praias com ‘paisagens caribenhas’ e água doce

Foto: Pelos Brasis

Saindo de Cuiabá pela BR-163, o fim da linha é de praias com ‘paisagens caribenhas’ e água doce
Olá, viajantes. É hora de trocar de estado mais uma vez. Deixamos o Amazonas rumo ao Pará em uma balsa que parecia um pouco esquisita no começo. Era nosso primeiro trecho longo de viagem pelo rio. E logo pelo Rio Amazonas, esse gigante brasileiro! Colocamos a Kombi Cuiabana em uma embarcação, mas nossa inexperiência neste tipo de trajeto não nos fez perceber de cara no que estávamos nos metendo: em uma balsa clandestina. Nosso destino era Santarém, um paraíso brasileiro banhado pelas águas transparentes do Rio Tapajós. Mas se você está nos lendo ai de Mato Grosso, fique tranquilo: você não precisa entrar na mesma roubada que a gente para chegar aqui. Basta pegar a BR-163 e segui-la até o fim.

 
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Em Manaus, pesquisamos pela internet, pedimos dicas para moradores e acabamos chegando no contato de um dono de uma empresa de transportes que faz o caminho até Santarém pelo rio Amazonas. O preço era bom. As garantias também. Fechamos. Acontece que no dia de embarcar, recebemos uma mensagem dizendo que não sairíamos mais naquela data porque uma das empresas de transporte de cargas que iria com a gente estava com problemas na documentação do material que fariam o frete. E assim foram se passando mais uns dias, um fim de semana, até que finalmente recebemos o ‘ok’ para embarcar.
 

Soubemos da localização para o embarque e contei para um conhecido que levantou a sobrancelha na hora: aquele era um porto menor e mais afastado da cidade. Chegamos lá, e a balsa ainda estava sendo carregada de caminhões. Esperamos e fomos os últimos a subir. Ali não havia proteção nas laterais e a embarcação estava extremamente carregada. O caminho para o banheiro era estreito e pelos cantos. Qualquer escorregão ou tropeção era uma queda pra fora da balsa.

 
Logo reparei que não tinham também rádio de comunicação. “Eles pegaram”, comentou um membro da tripulação com outro. De repente, a balsa desligava o motor, apagava as luzes de sinalização. Era para despistar as autoridades. “Eles” eram os policiais que há algumas semanas haviam apreendido o material. Depois, com um pouco mais de confiança, conversei com um membro da tripulação que confidenciou que o “forte” deles era mesmo dar apoio a garimpeiros ilegais, mas que como a fiscalização anda muito forte, naquele momento estavam fazendo transporte de pessoas e cargas.
 
 
E como a vida de viajante também guarda boas surpresas, pegamos a superlua numa noite de céu limpo cruzando o Rio Amazonas no meio da floresta. Uma memória que vamos carregar para sempre. E entre prazeres e percalços, chegamos em Santarém. Não sem antes mais uma surpresa. Atracamos à noite, mas não podemos desembarcar. Dormimos mais uma noite na balsa, parada no porto, e só na manhã seguinte trouxeram a rampa para que nós descêssemos. Enfim, estávamos no Pará, esse estado único, que tem rio e praia, gastronomia única, cultura indígena, herança colonial, manifestações religiosas de diversas matrizes, incluindo o maior evento católico do país: o Círio de Nazaré. Mas isso é assunto para colunas futuras...



Santarém é a cidade em que se encontram o Rio Amazonas, caudaloso, escuro, com biodiversidade exuberante e o Rio Tapajós, translúcido, lindo. O encontro das águas é algo tão marcante que está eternizado na bandeira do município. A oferta de peixes do Rio Amazonas abastece os mercados municipais e restaurantes com incontáveis espécies, disponíveis sempre frescas. O tucupi – caldo extraído da mandioca no processo de feitura da farinha – que já havíamos encontrado em Rondônia, Acre e Amazônas, abunda por aqui, numa variedade de preparos. Esses elementos se destacam na gastronomia paraense, mas estão espalhados por mais estados do Norte. Só que há uma coisa que para mim o Pará faz como ninguém: os sorvetes.
 
Há uma sorveteria em Belém que já ganhou prêmios internacionais, e nós vamos falar dela no momento certo, mas tudo o que provamos em Santarém não perde em nada para ela. É uma combinação de sabores únicos, com frutas amazônicas e temperos locais, com esmero no preparo. Das gelaterias mais chiques aos sorvetes de rua, não me arrependi de nenhuma casquinha ou cascão que comprei pelo caminho.
 
Além dos sabores de fruta que você encontra em todo o Brasil, aqui há cupuaçu, tucumã, murici, mucajá, pupunha, pajurá, patauá, araçá, araticum, biribá, piranga etc. e disso vem as irresistíveis combinações como: iogurte grego e geleia de cupuaçu, chocolate meio amargo com geleia de cupuaçu e castanhas (esse é inacreditável de bom) e o sorvete mais diferentão que provei na vida, que é dividido em duas partes: maracujá com pimenta e cupuaçu com cachaça de jambu. Indescritível! Uma explosão de sabores.
 

E a poucos quilômetros de Santarém fica o distrito de Alter do Chão, composto de um pequeno centro urbano, com comércio, restaurantes (e sorveterias!) à margem das praias de areias branquíssimas e banhadas pelas águas transparentes do Rio Tapajós. O cenário é paradisíaco. Digno de praias do Caribe... só que água doce, quentinha e com ondas e tudo mais. Há muitos passeios de barco disponíveis para ilhas e restaurantes que ficam em pontos mais distantes, em áreas de maior contato com a natureza.

Árvore gigante e cidade fundada por Henry Ford



Há também trilhas, atrativos na Floresta Nacional do Tapajós, como a visita à “Vovozona”, a árvore Samaúma de 70 metros de altura, cerca de mil anos e imponente em meio à densa vegetação amazônica. Pra quem gosta de história, há também uma cidade  nos arredores para se visitar que é praticamente um “museu” vivo. Estou falando de Belterra, município fundado por Henry Ford durante o ciclo da borracha. A cidade foi planejada para fornecer o látex que abasteceria as indústrias Ford. A biopirataria que levou as seringueiras para a Ásia, as mudanças no cenário econômico internacional e as inovações tecnológicas fizeram essa ideia ficar obsoleta e a cidade acabou abandonada por seu criador, mas toda a estrutura montada ficou lá, contando a história de quando a Amazônia esteve no centro de uma revolução tecnológica.

A coluna Pelos Brasis é assinada pelos jornalistas Lucas Bólico e Isabela Mercuri. Acompanhe o projeto no InstagramTikTokYoutube e Spotfy

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