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Terça-feira, 23 de julho de 2024

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O que a cidade que abraça o rio tem a ‘ensinar’ a Cuiabá... e a maior celebração católica do Brasil

Foto: Pelos Brasis

O que a cidade que abraça o rio tem a ‘ensinar’ a Cuiabá... e a maior celebração católica do Brasil
Olá, viajante! Mais de 1300 km separam nosso tema da coluna passada (Santarém) da nossa cidade de hoje: Belém do Pará. Pegamos estradas boas e tenebrosas, trechos de muita poeira, uma parte da Transamazônica, cortamos municípios, atravessamos barragens, arrebentamos a suspensão da Kombi... e chegamos à capital do nosso estado vizinho. Mas é tão longe que poderia ser outro país. De Cuiabá pra Belém são mais de 2,6 mil quilômetros por terra!!! A título de comparação, de Cuiabá para La Paz, capital da Bolívia, são pouco mais de 1,2 mil quilômetros. Ou de Cuiabá para Buenos Aires, na Argentina, 2,1 mil quilômetros.

 
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Mas em meio a tanta distância, o que Belém tem a oferecer? Vale a pena ir lá? A primeira coisa que saltou aos olhos foi a diferença com a qual a cidade trata o rio, ou melhor, os rios que a banham. A diferença com Cuiabá, nossa capital que cada vez mais cresce de costas para o rio que lhe dá nome, é gritante. As águas que cercam Belém são parte da vida da cidade, para além do abastecimento hídrico e regulação da chuva, mas também pelo fornecimento de comida, trânsito de cargas, pessoas e principalmente como pedra angular da formação identitária desse povo mestiço. Não faço a comparação com a perspectiva anacrônica de retomada de uma rota fluvial pelo Cuiabá, mas com lamento de que o nosso rio caminha para ser mero depósito de esgoto, num processo de assoreamento histórico e cultural.



Mas estamos aqui para falar de Belém. Quem leu a coluna passada percebeu nosso encanto com a gastronomia paraense. E chegar na capital é aprofundar essa experiência pelos hábitos alimentares amazônicos, de forte raiz indígena, mas miscigenada pela colonização europeia.  Esse encontro, aliás, está bem documentado nos museus da cidade, como no instalado no Forte do Presépio, construção militar erguida para garantir a soberania portuguesa naquele território. O contato, como em todo território nacional foi marcado por violência, revolta e conflito armado. Tradições, cultura, mitos e utensílios dos povos tradicionais estão preservados e podem ser acessados não só nos museus, mas se fazem presentes na vida belenense. É fácil encontrar o muiraquitã (espécie de amuleto indígena em formato de sapo), arte marajoara e comidas que sobreviveram ao projeto de embranquecimento brasileiro.
 
Perto do Forte do Presépio está o mercado Ver-o-Peso, onde já funcionou o posto fiscal criado por portugueses para controlar a saída de produtos extraídos da região amazônica e a chegada de produtos europeus. Um local, veja só, para controle de peso (daí o nome Ver-o-Peso) e arrecadação de tributos. Hoje o mercado é símbolo da gastronomia nortista, com pratos que destacamos aqui nesta coluna desde que chegamos ao Norte do Brasil, mas que aqui vale uma nota específica para o açaí. O açaí de Belém é fresco, colhido e batido diariamente e vendido in natura. É consumido com farinha de mandioca ou de tapioca com peixe frito, camarão, carne seca etc e pode ser sobremesa também, acrescido ou não de açúcar. O açaí do Pará é realmente único. Prova-lo só demonstra como os produtos processados que nos chegam são ralos e excessivamente adoçados.
 

E pertinho do Ver-o-Peso fica a Estação das Docas, complexo turístico-cultural que é parada obrigatória para quem vai conhecer a cidade. Lá estão disponíveis comidas e artesanato que também estão à venda no mercado ao lado, mas em ambiente climatizado e com opções mais, digamos, gourmetizadas. Há uma cervejaria que explora combinações com frutas amazônicas, inclusive com um rótulo de uma stout sabor açaí premiada. E se é pra falar de combinação premiada de sabores de frutas locais, tem também na Estação das Docas (e espalhada pela cidade) a sorveteria Cairu, simplesmente eleita uma das 100 melhores sorveterias do mundo pela enciclopédia gastronômica internacional TasteAtlas, que cataloga pratos tradicionais e restaurantes ao redor do mundo. Nós, que já estávamos hipnotizados pelos sorvetes paraenses, perdemos a conta de quantas vezes fomos à Cairu e de quantos sabores provamos.

Maior festa católica no maior país católico do mundo



Mas voltando à herança colonial portuguesa, Belém tem igrejas históricas espalhadas pela cidade e abriga o maior evento católico deste país que é considerado o maior país católico do mundo. Estamos falando do Círio de Nazaré, evento que para a cidade para o translado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Vêm pessoas de todo o Brasil e até de fora para essa experiência religiosa que une devoção e autopenitencia. As ruas de Belém se lotam de gente para ver a santa passar, agradecer e pedir graças. Há também os que entram nas estações em que ficam cordas que puxam a berlinda em que fica a imagem. O número de pessoas é muito grande, os corpos ficam espremidos, o trajeto é feito a pé e inúmeros voluntários ajudam fornecendo água para amenizar o calor. Desmaios são comuns. Muita gente faz o caminho de joelhos.

O Círio é sempre realizado no segundo domingo de outubro. Neste ano estávamos lá desde muito antes da data e pudemos perceber como a mobilização para o evento cresce a cada dia, tomando as ruas em decoração, influenciando o marketing das empresas. Numa explicação mais simplista, pode-se dizer que o Círio é algo como o “Natal” do paraense. A cidade entre em festa no início da semana e a celebração deságua no almoço de domingo, sempre em família e regado a comidas típicas como pato no tucupi e maniçoba (espécie de feijoada, mas que ao invés do feijão é feita com a maniva - folha da mandioca). E assim como o Natal, o Círio também extrapolou o caráter religioso e se tornou um evento de toda a comunidade belenense, católica ou não. Prova disso é a Festa da Chiquita, evento LGBTQIA+ que irrompe as ruas de Belém no sábado à noite, logo após a transladação. O Círio é de todos.
 

De volta às águas

E voltando a falar dos rios que banham Belém, em um trajeto de 15 minutos de barco, com vista de frente para toda a cidade, há a opção de passeio na Ilha do Cumbu, cheia de agradáveis restaurantes onde se serve a diversa comida paraense, com direito a banho nas águas para amenizar o calor amazônico.
 
Outra ilha que merece ser visitada em passagem por Belém é a de Mosqueiro, localizada na costa oriental da baía do Marajó, com acesso por ponte, e cheia de praia de água doce.
 
E no coração da cidade, numa das maiores comunidades sobre palafitas, a Vila das Barcas, fomos a uma noite de aparelhagem, que são aqueles sistemas de som gigantescos, que tocam brega/ tecnobrega e outras variações de músicas populares. Veja no vídeo abaixo.



Além das infindáveis águas doces, o Pará ainda é banhado pelo Oceano Atlântico e tem praias lindas, mas isso é assunto para outra coluna...

A coluna Pelos Brasis é assinada pelos jornalistas Lucas Bólico e Isabela Mercuri. Acompanhe o projeto no InstagramTikTokYoutube e Spotfy

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