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Terça-feira, 13 de abril de 2021

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Tecnologia do crime

‘Central de Golpe’ usou pandemia como arma e plataforma pirata que expõe todos os dados de cidadãos

Da Redação - Wesley Santiago

21 Fev 2021 - 16:24

Foto: Asscom/PJC-MT

Delegado Guilherme Bertoli (azul) titular da Derf Cuiabá

Delegado Guilherme Bertoli (azul) titular da Derf Cuiabá

Os membros do escritório utilizado para a prática de estelionatos, descoberto pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Cuiabá, na semana passada e que tinha documentos falsificados de diversos delegados, oficiais da Polícia Militar, professores do Estado, entre vários outros servidores se utilizou da pandemia do novo coronavírus como arma para aplicar golpes. Além disto, eles têm acesso a uma plataforma pirata, que expõe todos os dados dos cidadãos do país.

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A plataforma ilegal é utilizada pelos bandidos para fazer uma verdadeira devassa na vida das pessoas. “Ela é paga e os criminosos adquirem até via WhatsApp. Algumas já caíram, mas vão surgindo outras. Qualquer informação que você colocar, por exemplo a placa de um veículo, aparece a vida toda de uma pessoa. Onde ela morou, telefone, tudo”, disse ao Olhar Direto o delegado Guilherme Bertoli, titular da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos de Cuiabá (Derf).
 
Recentemente, o dfndr lab, laboratório de pesquisa de segurança da PSafe, identificou um vazamento em um banco de dados que expôs informações pessoais de 220 milhões de pessoas — praticamente toda a população do Brasil.
 
Segundo a empresa, foram expostos nomes completos, datas de nascimento, CPF, além de dados de 104 milhões de veículos e de 40 milhões de empresas.
 
Tendo o CPF e outros dados reais da pessoa, o golpista pode facilmente utilizar engenharia social para obter dados mais críticos da vítima, que poderiam ser utilizados para pedir empréstimos, senha de banco e contratações de serviços. Os bandidos têm utilizado até a pandemia do novo coronavírus a seu favor. Isso porque ficou mais fácil para eles abrir contas em bancos, principalmente com documentos falsificados.
 
“Com certeza [este vazamento] é referente ao uso desta plataforma, algo que a alimenta. É uma violação total ao direito das pessoas. O que favorece somente aos criminosos”, explicou o delegado Guilherme Bertoli.
 
Ainda conforme o delegado, muitos criminosos “migraram para o estelionato porque é uma modalidade em que há uma falsa sensação de impunidade e é algo que eles acabam continuando a praticar até de dentro do presídio”.
 
Documentos falsos
 
Foram alvos dos criminosos presos nesta operação da Derf: oito delegados; quatro tenentes-coronéis da Polícia Militar; dois professores da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat); perito da Politec; auditor fiscal do Estado; investigador de polícia e outros. O nome das vítimas não foi divulgado pela polícia.
 
Para que se tenha uma ideia do tamanho do esquema, apenas uma das pessoas teve quatro contas abertas em seu nome e os criminosos gastaram R$ 12 mil, estourando o seu limite. “Vamos ouvir todas as vítimas até para elas terem ciência. Muitos só vão saber quando o nome tiver negativado. É uma investigação complexa, depende de quebras de sigilo, requisições para órgãos”, disse o delegado titular da Derf, Guilherme Bertoli.
 
Ainda conforme o delegado, os criminosos tinham conhecimento de quem eram as vítimas de seus golpes. “Viram que tinham um salário elevado, poder maior de compra. Cada vítima que teve o documento fraudado, tinha toda a checagem do score, que era alto. Eles tinham a base do salário, que tinham acesso em sites de transparência”.
 
“Em algumas pastas, além do nome, tinha o cargo das vítimas. Por ser um salário bom, tinham ciência do poderio de compra, análise do crédito e outras. Era tudo muito bem esquematizado”, acrescentou o delegado.
 
Descoberta
 
As diligências iniciaram após os policiais da Derf Cuiabá receberem denúncia sobre uma casa no bairro Pedregal, em Cuiabá, utilizada para prática de crimes. Segundo as informações, no local funcionava um escritório especializado em golpes cometidos através de site de compra e venda pela Internet (OLX).
 
Ainda de acordo com a denúncia, uma arma de fogo produto de roubo praticado contra um investigador da Polícia Civil estaria escondida na casa. Com base nas informações, os policiais foram até o endereço em local de difícil acesso, próximo ao córrego do barbado.
 
Ao perceber a presença dos policiais, o suspeito empreendeu fuga pelos fundos da residência.
 
No local, foi apreendido um notebook que estava aberto no site do Governo, cartões de créditos, além de vários documentos falsos emitidos em nome de autoridades do estado, entre delegados, investigadores, oficiais da Polícia Militar, auditores do estado e peritos da Politec.
 
O delegado titular da Derf, Guilherme Bertoli disse que o responsável pela residência já foi identificado e que as investigações continuam para prender o suspeito, assim como identificar outras pessoas envolvidas nos golpes.
 
“O inquérito policial será instaurado para identificar a associação criminosa em sua amplitude e para demais medidas judiciais cabíveis”, disse o delegado.

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