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Quinta-feira, 23 de setembro de 2021

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COMISSÃO DE SEGURANÇA

Delegados depõem sobre saída de cargos por suposta ação política e lembram possível pressão na PJC; deputados falam em CPI

Foto: Angelo Varela/ ALMT

Delegados depõem sobre saída de cargos por suposta ação política e lembram possível pressão na PJC; deputados falam em CPI
A Comissão de Segurança Pública e Comunitária da Assembleia Legislativa recebeu, na tarde desta terça-feira (14), os delegados Flávio Stringuetta, Lindomar Aparecido Tófoli e Anderson Veiga, para que eles pudessem explicar sobre um possível aparelhamento da Polícia Civil para investigar o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB). A audiência teve mais de duas horas de duração e foi tomada por lembranças, sentimentos e apontamentos, principalmente contra o governo do estado, em diferentes gestões. Ao final, deputados chegaram a cogitar uma abertura de CPI.

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O pedido para os depoimentos  partiu da assessoria jurídica do chefe do executivo municipal e foi aprovado pela comissão há duas semanas. A investigação também está em curso na Corregedoria da Polícia Civil, onde ambos já foram ouvidos, assim como os assessores jurídicos do prefeito. Sem citar nomes, os delegados foram chamados um a um para falar sobre as possíveis motivações de seus afastamentos. 

O primeiro a falar foi o delegado Flávio Striguetta, que atualmente está na 3ª Delegacia de Polícia Civil do Coxipó. Stringuetta já foi afastado da Gerência de Combate ao Crime Organizado e fez diversas declarações contra o Ministério Público em artigo de opinião intitulado “O que importa nessa vida?”, trazendo diversas imputações criminosas a alguns membros do MP. 

No início, Stringuetta logo adiantou que está na comissão de forma voluntária e que na época não participou diretamente dos fatos. "Fiquei sabendo pela imprensa. Trabalhei com o delegado Lindomar Tofoli em Tapurah e com Anderson Veiga em Sinop. Confio muito na palavra deles e que é a mais pura verdade. Não há motivo para inventar algo assim e sabiam das consequencias negativas de falar o que falaram. Eles sabiam que corriam risco de falar a verdade para a sociedade. Não queríamos que a politicagem tomasse conta da PJC", disse Stringuetta.

Ele lembrou que foi investigador em São Paulo e sabe como funciona com quem fala a verdade. Porém, por não fazer parte de afastamento na época citada, em 2019, Flávio apenas comentou sobre autonomia da PJC e como funciona dentro da repartição. 

"É tudo muito ralativo na Polícia Civil. Se o delegado quiser continuar no cargo, ele tem que obedecer o governador. Jamais é um pedido. O pedido sempre é uma ordem. O que eu acredito é que o delegado-geral obedeceu a ordem do governador. Não fazia sentido a retirada do Dr Veiga da Delegacia Fazendária. No caso do Dr Lindomar, ele não viu justa causa para investigações, Dr Veiga creditou na autonomia do Dr Lindomar e por isso também foi afastado.  O delegado-geral depende do governo. Tem que atender pedidos do governo para ficar no cargo. E isso não deveria acontecer. Até porque a PJC é polícia de estado e não de governo", disse o depoente. 

O deputado Faissal Calil disse que isso precisa ser mudado. "Não dá para órgãos como PJC e Ministério Público continuar de forma totalmente dependente do governador. Quem anuncia o procurador geral de Justiça é o governador. Se continuar assim, os órgãos sempre terão pirez na mão", frisou. 

Lindomar Tófoli

O segundo a falar foi o ex-delegado adjunto da Delegacia Fazendária (Defaz), Lindomar Tofoli. Ele na época foi afastado do cargo e colocado para uma delegacia comum, como a segunda delegacia do Parque do Lago. Tofoli é de categoria especial e foi afastado por duas vezes. Uma vez por investigar o governador do estado, em 2014, na época Silval Barbosa. E em 2019, já na atual gestão. 

Lindomar lembrou todo histórico. "Eu investiguei o Silval por conta das cartas de crédito. Naquela época a gente apurou que a situação do Silval, preso preventivamente, fez colaboração premiada. E um dia ele contou como foi pra eu sair. Ele [Silval] me contou que foi pressionado por um deputado e chegou ao chefe de polícia da época e o governador chegou a dizer que ou tirava ele, ou ele tiraria o chefe de polícia. Naquela época eu sai. Adoeci por causa disso. Isso chocou meus princípios e valores. Me perguntei em que mundo eu vivo, pois o certo é o errado e o errado é o certo. Todo mundo tinha medo de mim. Eu parecia leproso.  O tempo passou e voltei", lembrou.

"Depois, nessa gestão, lá vou eu me deparar com essa mesma situação. Eu estava investigando essa gestão (governador Mauro Mendes) e também teve outra situação e uma delas é em relação a um médico que é irmão de uma deutada daqui. Quem está com documento falsificado jamais entregaria o documento na delegacia. Mas, ao cumprir minha busca, fiz minha missão e eu fui chamado na diretoria e falado que eu ia sair. Perguntei a justificativa e me disseram que não tinha. Falaram que era para oxigenação. Nesse mesmo tempo surgiu a situação de Emanuel, não lembro bem a data. O duro é que eu já estava ruim, pois eu estava trabalhando e novamente fui afastado", completou o delegado. 

Tóffoli continuou a fala, fazendo um certo desabafo e contando que foi afastado após fazer uma operação contra o irmão da deputada Janaina Riva, filho do ex-deputado José Riva. 

"Uma pessoa me disse que eu tinha saído da delegacia por causa do filho do Riva e que ninguém tinha controle sobre mim. Que você foi lá xingando e as crianças começaram a chorar. E quem me conhece sabe que isso nunca aconteceu. Mas, essa ai foi uma das coisas que chegaram pra mim e a outra motivação era porque eu estava investigando o governo. E essa pessoa que me contou em detalhes o que eu estava investigando. E eu naquele momento me vi de novo, por estar trabalhando eu fui afastado. Minha consciência me pediu para tomar uma atitude. Procurei o sindicato, impetrei mandato de segurança para voltar. Se eu não posso investigar governo, se eu não posso investigar quem te vínculo com governo, quem eu posso investigar?", questionou.

"Enquanto estive lá a maioria das investigações foram contra a prefeitura. A sangria é uma delas. A questão da delegacia. Quando eu fui pegar a portaria para ir a delegacia de Meio Ambiente, eu fui parar na Várzea Grande. Já tenho carreira e fui parar numa delegacia com casos de começo de carreira. Espero que a polícia possa mudar. Espero que façam alguma alteração no sentido de estabelecer um prazo fixo. Não tem um que não tem denúncia. Todo governo tem denúncia. A corrupção é latente ao ser humano. A gente não viu uma operação contra esse governo. Se a denúncia chegou e foi direto para o Gaeco, pra mim é na cara que estão com medo", concluiu.

Anderson Veiga

O delegado, que atualmente está no quadro da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), foi titular da Defaz e afastado em 2019. No início de sua fala, o policial lembrou que já atua há 30 anos na Segurança Pública e há 18 anos está em Mato Grosso como delegado de Polícia Civil. 
Sobre a situação de sua remoção, Veiga explicou que durante a permanência à frente da Defaz, inclusive houve incremento de delegados. Na época, houve recorde de produdutividade e em termos gerais houve um reconhecimento de cumprimento de metas. "Alcançávamos as metas com colaboração de todos", disse o delegado. 

"Houve tempo que o númro de operação era volumoso. Tivemos que segurar alguns atos. Tava um clima muito legal na Defaz. O que seria objeto de apuração da corregedoria e dos senhores deputados, é a nossa operação funcional. O fator da minha saída me pegou de surpresa. Eu cumpri as ordens, apenas. Então, eu segui. De fato não foi uma remoção tranquila. Foi bastante atípica. Durante todo meu tempo de delegado, não me recordo de ter passado por uma remoção assim. Os fatos e detalhes, eu creio que a própria Coregedoria possa passar aos senhores", disse o delegado. 

O deputado João Batista questionou se a saída do delegado Anderson Veiga pode ter acontecido por ele não investigar o prefeito Emanuel Pinheiro. Veiga, de pronto, disse que sim. "Eu acredito que sim. O desmembramento da delegacia de Defaz, para Defaz e Deccor, não tem nada a ver com isso. Foi uma demanda do Ministério da Justiça. Nossa delegacia era referência pro Brasil todo. Eu cheguei a dizer que o desmembramento poderia destruir a delegacia. Eu penso que se houve a minha saída, talvez a maneira que eu trabalhei não estava legal. Não houve pressão pra cima de mim. Existe na Corregedoria um fato apurando o motivo de minha saída da Delegacia", respondeu o delegado. 

Chegou pra mim uma determinação para nos apresentarmos na Diretoria Geral. Para ter investigação, é necessário prova. No dia da busca na casa do irmão da deputada, a ação foi justa, legítima e necessária. Nada ultrapassou os limites. Alguns telefonemas chegaram. Mas, não pra aliviar barra. Era só pra saber como estava a situação. Em alguns casos chegam. Mas, não vi motivo para levar para corregedoria. Até porque, telefonema a agente recebe. Minha saída pode ter sido por conta de minha forma de trabalho. Que é isenta. 

Abertura de CPI

Ao final das oitivas, o deputado Faissal Calil pediu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar essas conduta dentro da Polícia Civil. "É necessário saber e entrar a fundo disso que foi falado aqui", comentou o deputado. 

No enredo do que falou Faissal, o deputado Ulysses Moraes (PSL) disse que apoia a atitude e é necessário sim investigar.

A ata da audiência será encaminhada à Corregedoria da Polícia Civil e também para o Ministério Público, para que haja investigação desses órgãos. 

Porém, o presidente da Comissão, deputado João Batista (Pros) disse que pode ter dificuldade em abrir mais uma CPI, tendo em vista que na Casa de Leis já há três comissões em abertas e não espaço para uma quarta. "Até a CPI do Gás ficou prejudicada. Por isso acho difícil", comentou. 
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