Olhar Direto

Sexta-feira, 01 de julho de 2022

Notícias | Mundo

mulheres do mundo

Mães imigrantes que cruzam fronteiras para criar os filhos: ‘que façam aqui o que não puderam fazer na Venezuela'

Foto: Arquivo pessoal

Suanny, imigrante venezuelana, com os filhos durante o último Natal no Equador, em 2020.

Suanny, imigrante venezuelana, com os filhos durante o último Natal no Equador, em 2020.

O clima é de concentração. Usando uma touca, a venezuelana Suanny Galvan, 37 anos, corta vários pães em um balcão da padaria do Centro de Pastoral para Migrantes, no bairro Novo Mato Grosso, em Cuiabá. Após uma longa jornada, faz apenas sete meses que ela chegou ao Brasil e seis que conseguiu um emprego na panificadora. Dali, a imigrante tira o sustento da família, composta por ela, três filhos e o marido. 

Leia também:
Ciclismo reforça conexão entre mães e filhos e gera bem-estar familiar; fotos e vídeos

Dados do Sistema de Tráfego Internacional (STI) apontam que, entre janeiro de 2017 e março deste ano, mais de 700 mil venezuelanos deram entrada no Brasil. Deste número, 47% são mulheres. Suanny é uma delas. Entre uma pausa e outra, ela recebe a reportagem e conta sua história, que também faz parte de outra estatística no país: a de mães imigrantes que cruzam várias fronteiras para criar os filhos.

Natural de Maracaibo, segunda maior cidade da Venezuela, Suanny chegou a Cuiabá em setembro de 2021 com os filhos, de 8, 12 e 14 anos. O motivo foi, principalmente, a crise econômica acentuada pela pandemia, que deteriorou as oportunidades do Equador, país para onde ela havia migrado em 2019. Naquele ano, a Venezuela sofria com hiperinflação e colapso econômico. 

“Em Maracaibo era horrível o transporte, as pessoas eram transportadas em caminhões, não tinha médicos. Tenho uma filha que tem asma, várias vezes passei sustos porque a bebê tinha ataque de asma e não tinha onde levá-la. Às vezes, as pessoas me ajudavam, os que tinham carro me levavam, mas não tinha oxigênio, não tinha nebulizador”, relata Suanny ao Olhar Direto, que na época era dona de casa. 

Antes de se mudar para Cuiabá, porém, Suanny deixou a Venezuela, em janeiro de 2019, e foi para o Equador. Seu marido já estava no país e transitava entre Colômbia e Equador, vendendo como ambulante em ônibus e enviando dinheiro para ela. Lá, a imigrante e a família viveram por dois anos e meio, em Quito, a capital equatoriana. O preconceito, no entanto, encurtou seus planos.
 
Por conta da crise econômica, Suanny deixou a Venezuela, imigrou para o Equador e, depois, para o Brasil, com o marido e os filhos. (Foto: Michael Esquer/Olhar Direto).

“Tivemos que enfrentar xenofobia, as crianças, principalmente. Foram momentos muito difíceis. Depois nos adaptamos a cultura, mas sempre tinha esse medo que as crianças saíssem para brincar porque os equatorianos diziam ‘fora daqui venezuelanos, volte ao seu país’. Nunca encaixei aí, porque me dava medo, por conta da xenofobia”, explica. 

Em 2020, com o surgimento do novo coronavírus, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Trabalhando como vendedora ambulante com o marido, a quarentena impediu que Suanny continuasse pagando o aluguel da casa onde vivia com a família em Quito. 

“O Equador foi um país que sofreu muito na pandemia, tudo estava fechado, não haviam meios de trabalho, paralisaram tudo, ninguém podia sair à rua. O aluguel acumulou, a dona da casa estava pegando nossas coisas para pagar, foi feio”, conta Suanny, enquanto começa a explicar como chegou ao Brasil. 

Foi através de um irmão que, em 2021, ela descobriu que o país poderia ser o lugar que acolheria sua família. Leonardo Dorta, 42 anos, assim como Suanny, deixou a Venezuela em 2019, mas, diferente da irmã, veio direto para o Brasil. De Cuiabá, ele disse à irmã que a pandemia não havia afetado tanto a cidade. 

O conselho foi mais que suficiente. Primeiro veio o marido e, três meses depois, em setembro, Suanny e os três filhos chegaram a Cuiabá. Eles vieram por Cáceres, município mato-grossense que faz fronteira com a Bolívia. Na capital mato-grossense, ela foi recebida no Centro de Pastoral para Migrantes, instituição de acolhida, apoio e integração para imigrantes, onde agora trabalha como auxiliar de padaria. 
 
Após três meses abrigada no Centro de Pastoral para Migrantes, a venezuelana foi convidada a assumir o posto de auxiliar de padaria na instituição. (Foto: Michael Esquer/Olhar Direto)

“Quando faltava uma semana para completar três meses aqui na Pastoral, o padre me fez uma proposta de trabalho. Ele me disse que tinha um projeto de uma padaria, que eles tinham visto meu comportamento aqui na casa, se eu queria trabalhar com ele, eu disse sim. Eu saí [da Pastoral] e comecei a trabalhar com ele”, relembra Suanny, atualmente morando de aluguel em um apartamento no bairro Residêncial São Carlos. 

Jornada longa até Cuiabá

Yumaira Ávila, 52 anos, é outra mãe imigrante que sabe bem o que é ter que deixar o seu país em busca de oportunidades. Nascida em Caracas, capital da Venezuela, ela chegou em Cuiabá há pouco mais de uma semana, acompanhada do filho, Daniel Ávila, de 21 anos. Yumaira, assim como Suanny, já estava fora de seu país no início da pandemia. 

Era fevereiro de 2019 quando ela saiu da Venezuela, com o marido e o filho, para fugir da pobreza e da fome. Entre aquele ano e 2020, pesquisa do Instituto de Investigações Econômicas e Sociais da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Católica Andrés Bello (IIES-UCAB) apontou que 96,2% da população da Venezuela estava vivendo na pobreza e 79,3% em extrema pobreza.
 
Pouco tempo antes de partir, a caraquenha ainda gerenciava um comércio de empanadas, mas a superinflação impossibilitou a sustentabilidade da sua única fonte de renda. Somado a isso também esteve a insegurança alimentar, que fez com que a família reduzisse de três para, até, uma o número de refeições diárias. 

“Foi muito difícil sustentar-me ali. Vivia com minha mãe, meus irmãos, meu marido e meu filho. Tentei retomar várias vezes, mas todos os dias aumentavam os preços dos produtos. Tudo era mais restrito, já não eram [mais] as três comidas, tinha dias que era uma comida ou duas comidas. Vi meu filho nessa situação e disse 'vamos”, conta Yumaira. 

Yumaira também chegou ao Brasil pela fronteira do Acre com o filho. (Foto: Arquivo pessoal)
 
O primeiro destino escolhido pela imigrante foi Tunja, cidade colombiana que faz fronteira com a Venezuela e único lugar para onde as reservas da família alcançaram chegar. Lá, ela ficou seis meses, abrigada na casa de um amigo que recém havia feito. Enquanto vendia donuts com o marido nas ruas, o filho também ajudava com as despesas trabalhando como garçom em um restaurante. 

Após o vencimento do período de estadia permitido pela migração colombiana, seis meses, a família teve que buscar refúgio temporário no Equador, enquanto aguardavam a emissão de um visto humanitário para o Peru. Com o documento em mãos, eles ficaram no país peruano, onde também atravessaram a pandemia e desempenharam todo tipo de trabalho para prover o básico à família. 

Neste ano, após descobrir na internet, com a ajuda do filho, que o Brasil lhe ofereceria a oportunidade que não teve na Colômbia, no Equador e no Peru, Yumaira não hesitou. Entrou no país pelo Acre e, em seguida, foi para Rondônia, onde, finalmente, após conhecer integrantes da pastoral, chegou à Cuiabá na sexta-feira passada. O marido, por sua vez, continuou no Peru. 

“A razão de ter vindo para o Brasil foi pela forma de trabalhar. Lá [no Peru], por exemplo, tratam as mulheres muito diferentes. A jornada de trabalho são muitas horas e não te garantem benefícios. Lá eu trabalhava mais de 10, 12 horas. Para minha idade, eu digo que meu corpo não aguenta esse tipo de trabalho, mas eu tentei”.

“Nunca pensei em deixar a Venezuela"

Quando olha em retrospectiva, Suanny conta que nunca pensou que um dia precisaria deixar Maracaibo. Na cidade, a venezuelana tinha uma vida de classe média que nem ela mesmo tinha ciência, mas que as dificuldades enfrentadas em outros países a fizeram perceber. A conclusão, conforme conta, teve enquanto conversava com o marido, recentemente.  

Suanny e a família na fronteira do Equador com o Peru, à caminho do Brasil, em setembro de 2021. (Foto: Arquivo pessoal). 

“Quando eu estava no Equador eu dizia ‘Deus o que eu ia pensar quando estavam me ensinando os países e as capitais na escola, se me dissessem que eu ia estar em Quito?’. E agora aqui, que eu ia estar no Brasil? Nunca imaginei estar no Brasil, nunca, falando outro idioma”, enfatiza. 

Apesar disso, a mãe é resiliente. Os motivos que fizeram com que ela e a família emigrassem de seu país natal, com o seu otimismo, recebem um verniz de esperança. “Eu acredito que tudo acontece porque Deus permite. É ruim, porque você deixa tudo [para trás], mas ao mesmo tempo é bom. O fato de vir aqui e ter passado por outro país é bom porque você aprende outras culturas, no caso do Brasil aprende outro idioma”. 

Já para Yumaira, viajar pelo mundo sempre foi um sonho. Por isso, antes mesmo de deixar a Venezuela, ela e a família haviam emitido o passaporte, o que facilitou os trâmites burocráticos pelos países por onde passou. A surpresa, porém, recaiu sobre a forma que esse desejo se transformou em realidade para a caraquenha.

“Eu confesso que eu sempre sonhei em viajar [...] e bem, me sobrou viajar, por essa situação. Mas eu nunca imaginei que ia ser pela situação que estava passando o país, que ia ser dessa forma, mas por esse desejo, eu já tinha o passaporte, meu filho também já tinha preparado”. 

Trajetos feitos por Suanny e Yumaira até Cuiabá. (Ilustração: Olhar Direto)

Diferenças culturais 

Se mudar de um país para outro também implica em dificuldades de adaptação cultural. Se tratando de idiomas diferentes, como foi o caso de Suanny e Yumaira, que se mudaram de um país de língua espanhola para outro de língua portuguesa, as adversidades são ainda maiores. Suanny conta que as crianças sentiram essa diferença.

“O idioma foi uma das coisas que mais me dificultou. No começo, meu filho mais velho não queria ir à escola, porque dizia que não entendia nada. Ele me dizia que não era fácil passar cinco horas escutando um professor falar e não entender nada. Essa mudança o afetou muito”, diz. 

Agora, passados sete meses, ela conta que os filhos já falam o português, até mesmo, melhor que ela. Durante as conversas em família, quando estão em casa, ela revela que as crianças dizem não querer mais deixar o Brasil. A filha mais pequena, Elienay, de 8 anos, porém, ainda faz questão de falar a língua materna em casa. 

“Em casa ela não fala português. Esses dias, estava falando portugues com ela e ela disse ‘não fala assim’. Eu deixo que se relacionem com brasileiros, na parte de trás [de casa] tem uma quadra e um parque. Todos os dias jovens, crianças, saem para brincar, fica cheio. Eu deixo que eles vão brincar. Aí eles aprenderam, se relacionando, isso os motivou”.

Recém chegada, Yumaira e o filho ainda estão conhecendo a cidade. Diferentemente de sua compatriota, o idioma foi para ela o menor dos problemas. A julgar pelo que viu até agora, ela afirma que a diversidade é algo que a encantou. Atenção e carinho são os adjetivos que ela atribui ao tratamento que recebeu desde que chegou ao Brasil. 

“O idioma não vi problema, vim feliz porque ia aprender a falar português. Eu gosto de conhecer culturas, para isso não vejo que tenha barreiras porque consegui fazer tudo. O idioma não é impedimento para integrar-se à sociedade. [Os brasileiros] buscam ajudar mesmo não conhecendo nosso idioma”, elogia. 
Yumaira sempre sonhou em viajar pelo mundo, mas não imaginava que realizaria seu desejo devido à crise econômica no seu país. (Foto: Arquivo pessoal)
Acolhimento no Brasil e nova chance

Enquanto ri e comenta a sobre a nova vida, Suanny se lembra das várias oportunidades que a fizeram sentir acolhida no Brasil. Em dado momento, ela vai além e compara a receptividade brasileira com o mesmo aconchego que sentia quando ainda vivia em seu país.

“Como eu vim de um país xenofóbico [Equador], eu vi que aqui não tem isso. Aqui as pessoas te veem falar e falam ‘ah, você é boliviana, paraguaia?’. Tem essa recepção quando você fala. As pessoas te fazem sentir que não está sobrando, que não veio tirar nada de ninguém. O venezuelano quando chega estrangeiro, também [o] trata assim”.

Para o futuro, os planos incluem que seu marido, assim como ela, encontre um trabalho fixo, para que, juntos, possam comprar uma moto ou um carro. O maior deles é abrir um negócio próprio e se estabilizar no Brasil. Entretanto, mantendo o pé no chão, ela reconhece que já fez muito em pouco tempo. 
Eu sempre sonhei em viajar [...] mas eu nunca imaginei que ia ser pela situação que estava passando o país.


“Eu sinto que para sete meses é bastante. Não quero me mudar mais. Quero abrir algo próprio, algo meu, com o que pudesse sobreviver. A padaria [onde trabalho] é boa pra aprender, [porque] no futuro vou poder abrir meu negócio. Comprar uma casa também é o principal”. 

O sentimento é o mesmo compartilhado pela recém chegada Yumaira : “Eu vim para o Brasil porque vejo que na parte migratória tem mais acolhimento. Te dão a oportunidade de se estabelecer. Eu posso dizer que posso viver aqui, posso buscar emprego, estudar. Eu vi essa possibilidade no Brasil, eu e meu filho conversamos e falamos ‘vamos para o Brasil”. 

“Meus filhos são minha inspiração”

No trajeto que percorreram, as duas imigrantes venezuelanas possuem uma semelhança: são mães e cruzaram várias fronteiras com os filhos, em busca de oportunidades. Suanny conta que as crianças, foram, principalmente, o motivo pelo qual deixou a Venezuela e, além disso, não desistiu de seguir buscando um lar.  

“Meus filhos são minha inspiração. Se eu estivesse sozinha, eu não estaria aqui, teria ficado na Venezuela, poderia viver tranquila, como muita gente está lá. Tem muita gente que diz que está melhor, mas e a insegurança, o transporte, a medicina? Eu penso em tudo isso e digo ‘não posso, por meus filhos não”. 

Para Yumaira a experiência essencial, além de ter visto que pode contar com o apoio do filho, e vice-versa, foi o autoconhecimento que os momentos ruins os possibilitaram. A situação precária que enfrentaram, tanto no Equador, como na Colômbia, Peru e na própria Venezuela, aproximaram mãe e filho.

“Nos conhecemos em muitas situações. Quando vem as provas, as situações, aí que a gente vê as ações. [No Brasil] buscamos as políticas e, assim, conseguimos as informações muito rápido, em pouco tempo. Da mesma forma, eu acredito que em pouco tempo vamos ter emprego, vamos ter um lar, e se Deus permitir, vou ter minha casa”, comenta com esperança. 

“Quero que terminem aqui seus estudos, que comecem a universidade [...] para ser o que quiserem ser. Tem um que diz que quer ser advogado e eu sei que vai ser muito bom, não vai ter ninguém para ganhar dele. O que não puderam fazer na Venezuela, no seu país natal, [quero] que possam fazer aqui.”, finaliza Suanny. 

Para colaborar 

Interessados em colaborar com o Centro de Pastoral para Migrantes, podem entrar em contato com o diretor da instituição, Padre Valdecir, através deste número: 65 9 9244 - 5151. À reportagem, a pastoral disse que necessita, especialmente, de alimentos, leite e fraldas (PP, M, G e GG). Doações em dinheiro também podem ser feitas através do PIX: cpmigrante@gmail.com (e-mail). 

Aqueles que também tiverem interesse em ajudar a família de Suanny podem entrar em contato com a venezuelana através deste telefone: 65 9 9339 - 0093 (Whatsapp). Para ajudar Yumaira, o contato pode ser feito com a redação pelo seguinte email: noticia@olhardireto.com.br. A caraquenha não possui telefone.
Entre em nosso grupo de WhatsApp e receba notícias em tempo real, clique aqui

Comentários no Facebook

Sitevip Internet